Diante do turbilhão por que passa o país, tudo recomenda saber, daquele que é considerado o maior gênio de todos os tempos, suas impressões sobre a recente greve dos caminhoneiros, a crise da segurança pública, a reforma trabalhista, a hostilização de figuras públicas por populares, a autoridade do STF e, como não poderia deixar de ser, sua compreensão sobre o sentido da vida.

Numa entrevista exclusiva, Albert Einstein apresenta uma visão sóbria sobre essas questões. A seguir, o encontro da coluna com o inigualável físico alemão1.

Conversa Constitucional: Para começar, o que mais o surpreende no quadro atual da geopolítica mundial?

Einstein: Nações outrora de primeira linha curvam-se perante tiranos que ousam afirmar abertamente: direito é aquilo que nos serve!

CC: O ministro Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal, costuma dizer que vivemos em "tempos estranhos". Devemos temer os tempos atuais?

Einstein: Só através de perigos e convulsões podem as nações ser levadas a novos desenvolvimentos. Possam as atuais convulsões levar a um mundo melhor.

CC: Mas haveria alguma saída que nos leve a uma vida política saudável?

Einstein: Liberdade de expressão e ensino em todos os campos do esforço intelectual. Por liberdade, entendo condições sociais de tais que a expressão de opiniões e afirmações sobre questões gerais e particulares do conhecimento não envolva perigos ou graves desvantagens para seu autor. As escolas podem favorecer essa liberdade, incentivando o pensamento independente.

CC: Falando em escolas, ganha adesão o projeto "Escola sem partido", que sugere advertências a professores que "doutrinem politicamente" seus alunos. Por outro lado, manifestações do ministro da Educação contra professores que, em universidades públicas, ofereceram disciplinas para tratar do que chamam de "golpe" foram reputadas hostis à liberdade de cátedra. Tendo estudado em colégios alemães, conhecidos pela disciplina, qual a sua opinião?

Einstein: O professor deve gozar de ampla liberdade na escolha do conteúdo a ser ensinado e dos métodos de ensino a empregar.

CC: Há muita preocupação com a indisciplina. Vídeos de alunos atacando fisicamente professores chocam. Muitos pais passam a enxergar o endurecimento das escolas como uma solução.

Einstein: A meu ver, o pior para uma escola é trabalhar sobretudo com métodos de medo, força e autoridade artificial. Esse tratamento destrói os sentimentos sadios, a sinceridade e a autoconfiança do aluno. Produz o sujeito submisso. Ponha-se nas mãos do professor o menor número possível de medidas coercitivas, de tal modo que suas qualidades humanas e intelectuais sejam a única fonte de respeito que ele possa inspirar no aluno.

CC: Recentemente, o médico Dráuzio Varella afirmou que "a USP não tem que preparar alguém para fazer cirurgia plástica nos Jardins". Qual a sua opinião a respeito do ensino superior integralmente gratuito?

Einstein: O objetivo deve ser a formação de indivíduos capazes de ação e pensamento independentes, que, no entanto, vejam no serviço à comunidade seu mais importante problema vital.

CC: Voltando para a política, figuras públicas variadas têm sido hostilizadas nas ruas por populares. Qual a causa disso?

Einstein: Um grave enfraquecimento do pensamento e do sentimento moral. Esta, a meu ver, é uma causa essencial da barbarização das práticas políticas em nosso tempo. Considerada conjuntamente com a terrificante eficiência dos meios técnicos, a barbarização já constituiu uma terrível ameaça para o mundo civilizado.

CC: Pessoas sem mandato também são vítimas. A presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, teve a fachada do seu apartamento vandalizada. Algum conselho para a ministra?

Einstein: Setas de ódio também foram disparadas contra mim; mas nunca me atingiram, porque de algum modo pertenciam a um outro mundo, com o qual não tenho nenhuma ligação.

CC: Ainda na política, foi simbólica a construção de um muro diante do Congresso Nacional durante a votação do processo de impeachment da presidente Dilma Roussef. Oficializou-se a divisão entre direita e esquerda. Como lidar com essa divisão?

Einstein: Não só devemos tolerar as diferenças entre indivíduos e entre grupos, como devemos de fato aceitá-las com satisfação e considerá-las enriquecedoras de nossa existência. Essa é a essência de toda tolerância verdadeira.

CC: Também se questiona a legitimidade dos próprios representantes do povo. Fala-se há tempos numa Reforma Política...

Einstein: Os membros das câmaras legislativas são escolhidos por partidos políticos, amplamente financiados ou influenciados de outros modos por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, isolam o eleitorado do legislativo. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente, de fato, os interesses dos setores desfavorecidos da população. Assim, é extremamente difícil para o cidadão comum, e, na maioria dos casos, de fato absolutamente impossível, chegar a conclusões objetivas e fazer um uso inteligente de seus direitos políticos.

CC: Mesmo decisões judiciais passam a sofrer o risco de não serem cumpridas. Incluindo as do STF.

Einstein: O melhor tribunal de Justiça nada significa se não for sustentado pela autoridade e o poder para executar suas decisões.

CC: Esse ano, teremos eleições gerais e o Tribunal Superior Eleitoral tem tentado se precaver das "fake news". O senhor já se pegou pensando a respeito?

Einstein: A liberdade de ensino e de opinião, nos livros ou na imprensa, é a base do desenvolvimento estável e natural de qualquer povo. As lições da história – especialmente em seus capítulos mais recentes – são todas muito claras a esse respeito. Hoje, no entanto, temos de encarar o fato de que nações poderosas impossibilitam a seus cidadãos a adoção de opiniões independentes em matéria de política e induzem seu próprio povo em erro, mediante a difusão sistemática de informações falsas.

CC: Há um certo recrudescimento do discurso político e isso tem encontrado ressonância social. Se antes candidatos eram ensinados a serem politicamente corretos, hoje são orientados a ofender seus oponentes.

Einstein: É fora de dúvida que a crise mundial e o sofrimento e as privações que dela resultem para o povo são responsáveis, em certa medida, pelas perigosas convulsões de que somos testemunhas.

CC: E sobre os líderes populistas? O que o senhor tem a dizer?

Einstein: A estrada para a perdição sempre foi calçada pela exaltação hipócrita de algum ideal.

CC: Mas há quem diga que ao fim e ao cabo tudo se resume a impor a força sobre os outros.

Einstein: Durante a guerra, alguém tentou convencer um grande cientista alemão de que a força preponderava sobre o direito na história do homem. "Não posso refutar a correção do que afirma", respondeu ele, "mas sei que não teria nenhum interesse em viver num mundo assim"!

CC: E quanto à segurança pública?

Einstein: O Estado moderno deixou de ter condições de preparar adequadamente a segurança de seus cidadãos. Só a compreensão de nossos próximos, a justiça em nossas condutas e a disposição de ajudar nosso semelhante podem assegurar a permanência da sociedade humana e segurança do individuo.

CC: Mas já não se passou dos limites?

Einstein: Em tempos de intranquilidade e desordem, o povo tende ao ódio e à crueldade, ao passo que, em tempos de paz, esses traços da natureza humana só emergem furtivamente.

CC: E quanto a "distribuir" armas para a população se defender dos criminosos?

Einstein: Onde a crença na onipotência da força física predomina na vida política, essa força assume vida própria e se revela mais forte do que os homens que pensam usá-la como uma ferramenta.

CC: Bandidos matam. Agora, cidadãos reivindicam o direito de matar também. Onde iremos parar?

Einstein: O sofrimento e o mal produzem novos sofrimentos e novos males.

CC: Há muita crítica acerca da falta de negros no poder, seja público ou privado. Qual a sua opinião sobre a relação do Brasil com o seu povo negro?

Einstein: Seus ancestrais arrancaram essa gente negra de sua terra à força; e, na busca do homem branco por fortuna e vida fácil, eles foram impiedosamente esmagados e explorados, degradados à escravidão. O preconceito moderno contra os negros é resultado do desejo de manter essa condição indigna.

CC: O atual governo fez uma reforma trabalhista. Como o senhor vê países como o Brasil diante da Quarta Revolução Industrial marcada pelo universo digital?

Einstein: Um efeito da introdução dos meios mecânicos de produção numa economia desorganizada é que uma parcela substancial da humanidade deixou de ser necessária para a produção de bens, ficando assim excluída do processo de circulação econômica. As consequências imediatas são a redução do poder de compra e a desvalorização da mão de obra, em decorrência da competição excessiva, e estas dá origem a intervalos cada vez mais curtos, a uma grave paralisia na produção de bens.

CC: Há muitas críticas quanto ao tamanho do Estado e a forma de distribuir o seu poder. A atual greve dos caminhoneiros trouxe à tona discussões sobre o monopólio do refino de combustível no Brasil pela Petrobras.

Einstein: O Estado tornou-se, assim, um ídolo moderno a cujo poder insuflador poucos homens conseguem escapar.

CC: A Constituição apresenta princípios a serem adotados pela República nas suas relações internacionais. Por exemplo: "prevalência dos direitos humanos; autodeterminação dos povos; não-intervenção; defesa da paz; solução pacífica dos conflitos". O senhor, que viveu durante a Segunda Guerra Mundial, acha que fizemos a opção correta ao optarmos pela paz?

Einstein: Uma pessoa ou uma nação só pode ser considerada amante da paz se estiver disposta a ceder sua força militar as autoridades internacionais e a renunciar a qualquer tentativa de alcançar seus objetivos no exterior por meio da força, ou até renunciar aos meios para tanto. É preciso que se estabeleçam condições que assegurem a cada nação o direito de resolver seus conflitos com as outras nações em bases legais e sob jurisdição internacional.

CC: Grupos têm advogado abertamente a volta da ditadura militar no país ou uma intervenção militar. Como o senhor vê esse fenômeno?

Einstein: Se desejarmos resistir aos poderes que ameaçam suprimir a liberdade intelectual e individual, devemos ter muito presente o que está em jogo e o que devemos à liberdade que nossos ancestrais conquistaram para nós, após duras lutas. Sem essa liberdade, não teria havido Shakeaspeare, Goethe, Newton, Faraday, Pasteur ou Lister. Não haveria casas confortáveis para a grande maioria do povo, nem estradas de ferro, rádio, proteção contra epidemias, livros baratos, cultura e desfrute da arte para todos. Não haveria máquinas para poupar as pessoas do árduo trabalho necessário para o suprimento das necessidades essenciais da vida.

CC: O que de mais importante os regimes autoritários subtraem das pessoas?

Einstein: A liberdade do indivíduo, que nos propiciou todos os avanços do conhecimento e da invenção – liberdade sem a qual a vida, para um homem que se respeite, não merece ser vivida.

CC: Sentimos falta de estadistas, professor.

Einstein: O trabalho dos estadistas só pode ter êxito se eles forem apoiados pela vontade séria e determinada do povo.

CC: É possível a regeneração da vida política nacional?

Einstein: A pressão da injustiça acumulada fortalece no homem as forças morais que levam a uma libertação e purificação da vida pública.

CC: O senhor é um homem otimista. Qual a sua profissão de fé?

Einstein: Que sequer nos esquivemos da luta, quando ela for inevitável, para preservar o direito e a dignidade do homem. Se assim fizermos, logo estaremos de novo em condições de nos regozijar com a humanidade.

CC: A história das liberdades deve muito a advogados e advogadas. Qual a sua opinião sobre Gandhi, por exemplo?

Einstein: Um líder de seu povo, sem apoio de qualquer autoridade externa: um político cujos êxitos repousam não na astúcia nem no domínio de recursos técnicos, mas simplesmente no poder de convicção de sua personalidade; um lutador vitorioso que sempre desprezou o uso da força; um homem de sabedoria e humildade, armado de determinação e inflexível coerência, que devotou toda a sua força ao soerguimento de seu povo e à melhoria de sua sorte; um homem que enfrentou a brutalidade da Europa com a dignidade do simples ser humano, e por isso mostrou-se sempre superior.

CC: Uma última pergunta: qual o sentido da vida?

Einstein: O mais importante fator na moldagem da existência humana é o estabelecimento de uma meta; e essa meta é a criação de uma comunidade de seres humanos livres e felizes que, por constante trabalho interno, lutem por se libertar da herança dos instintos antissociais e destrutivos.

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1 Albert Einstein nasceu em Ulm, em 14 de março de 1879, e faleceu em Princeton, em 18 de abril de 1955. Esse físico teórico alemão radicado nos Estados Unidos, autor da teoria da relatividade, recebeu o Nobel de Física de 1921, pela correta explicação do efeito fotoelétrico. Foi eleito pela revista Time a Pessoa do Século. Cem físicos renomados o elegeram, em 2009, o mais memorável físico de todos os tempos. Em sua homenagem, a Editora Nova Fronteira lançou, na Coleção Clássicos de Ouro, a obra "Meus últimos anos. Os escritos da maturidade de um dos maiores gênios de todos os tempos", na 2ª edição (2017), traduzida por Maria Luyiza X. de A. Borges. São ensaios de um período de cerca de 15 anos – 1934 a 1950. Com base na obra, a coluna preparou essa entrevista imaginária na qual apenas as perguntas são hipotéticas. As passagens de Einstein foram retiradas na íntegra. Não há qualquer alteração.

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Saul Tourinho Leal

Saul Tourinho Leal é advogado em Brasília e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP. Foi premiado com a bolsa Vice-Chancellor Fellowship pela Universidade de Pretória, para realizar estudos de pós-doutoramento junto ao ICLA, Institute of Comparative Law in Africa. Saul foi clerk do juiz Edwin Cameron, na Corte Constitucional sul-africana e presidiu o Comitê para Relações com a África do Sul, do Conselho Federal da OAB, que lhe outorgou o Troféu de Mérito da Advocacia Raymundo Faoro. É tradutor das obras do jurista Albie Sachs, indicado por Nelson Mandela para a Corte Constitucional.