Para o radicalismo político vingar
pode-se ceder ao centrismo econômico

A prisão do ex-presidente Lula é a representação factual do imbróglio da política nacional, acidente agudo da crise institucional na qual estamos inseridos e prova cabal de que o processo eleitoral pode ser inútil à consecução de mudanças estruturais no país. Com efeito, as variáveis de risco aumentam por todos os lados, inexoravelmente.

O espetáculo político de São Bernardo do Campo foi concebido pelo seu ator principal para ser o anúncio da morte momentânea do Demiurgo da Nação – no fundo muitos creem que a prisão de Lula seja a chave para uma espécie de "anistia" mais à frente, via a análise do STF de eventuais inconstitucionalidades no caso das prisões de políticos de todas as estirpes criminosas. Note-se que a campanha eleitoral que o ex-operário tracejava recentemente pelas estradas do Brasil tinha evidente caráter redentorista, a promessa da restituição da ordem pregressa estabelecida pelo PT entre 2003 até 2010. O intervalo histórico de pouco mais de cinco anos (2011-2016) da infanta de Lula, Dilma Rousseff, era esquecido nos discursos, mas a amnésia não alcançava os depoimentos do ex-operário que associam o fracasso petista à inoperância governamental e política de sua própria criação.

Sabe-se que há evidente ódio ao petismo, sobretudo na região Centro-Sul do país. De outro lado, há renovada esperança em regiões pobres e rincões geográficos de que o lulismo retorne, messianicamente. Essa polarização faz todo o sentido.

Os "esclarecidos" do Sul combinam evidente preconceito de classe contra o petista associado à coisa concreta de que o governo do PT foi um desfile de corporativismo e corrupção, contrariedade à pregação secular do ex-partido proletário. Já os eleitores das regiões pobres e das miseráveis rebordas urbanas, ignoram as práticas republicanas, seja por ignorância, seja por incapacidade política de se rebelar, para esperar por programas assistencialistas e alguma migalha de verdadeiras políticas públicas.

Em meio à expansão dos extremos em detrimento de certa racionalidade centrista, as elites (é, elas existem!) silenciam e ficam passivamente assistindo ao andar das seitas de inspiração populista. Aqui, façamos o registro direto: não há razão mais para duvidarmos concretamente que a possibilidade de Ciro Gomes e Bolsonaro no segundo turno da eleição, apenas para expressar um pensamento dessa hora. Ambos os candidatos estão engordando à variável "antropológica" da massa eleitora, ou seja, penetrando o coração do povo sem que se saiba exatamente quem são e para onde levarão esse país dos Tristes Trópicos.

Nas rodas mais esclarecidas, vê-se que não há barreiras enormes para que, em algum momento, se ceda a um dos extremos, a depender da evolução das pesquisas. Como se sabe, não é prática dos esclarecidos e nem de nosso povo analfabeto, suscitar dúvidas sobre os que se apresentam para representá-los. Os empoderados são respeitados no poder e esquecidos fora dele. Talvez ainda sobre alguma estátua aqui e ali para lembrar os feitos dos que exercitam o poder. Lula, personagem da hora, verá que o seu destino é o esquecimento. Seria o mesmo de Vargas, mas esse inventou o diabólico ato de "deixar a vida para entrar na história". Mantida a vida, Lula não deve mais entrar na história, em sentido material, é claro. Veremos.

Alguém poderia sugerir que o centro político ainda possa ser salvo. Afinal de contas, é preciso ter denominador mínimo comum entre as propostas políticas dos candidatos mais centrados. Pois que, se não se reconhece que controle fiscal e monetário é base mínima da boa gestão pública, aí a coisa começa bem mal. Mais: a previdência social é sim problema genético para a consecução de qualquer política econômica. Abandonar essa racionalidade é tremendamente perigoso, mais isso pode acontecer. Todavia, o que é mais provável não é, paradoxalmente, esse cenário. É outra coisa.

É possível que o enorme fosso entre a política e a economia permita que um dos extremos abolete em seu programa econômico as "boas práticas" de mercado, admiradas pelos esclarecidos. Ou seja, para o radicalismo político vingar eleitoralmente pode o candidato ceder ao centrismo econômico. Refiro-me, muito mais, ao extremo direito, nominalmente ao capitão Bolsonaro. Aqui, lembro a história. Um ex-cabo, patentes abaixo ao nosso militar, foi eleito na Alemanha. Seu nome era Adolf Hitler. Interessante que o grande maestro da economia do chanceler e depois ditador alemão foi o economista e banqueiro Hjalmar Horace Greeley Schacht (1877-1970). Schacht moveu montanhas e controlou a hiperinflação, aumentou o emprego, revigorou o setor industrial e favoreceu a banca, então quebrada. Foi presidente do Banco Central Alemão (Reichsbank) entre 1933-1939. Depois, Schacht foi ministro sem pasta do ditador até 1943 e, aí finalmente, viu que tinha ajudado a alimentar um monstro. Acabou num campo de concentração nazista e depois foi julgado e absolvido em Nuremberg, pelos aliados vencedores da II Guerra.

Guardados os limites dessa comparação, que não são poucos, cito-a apenas para provocar a ideia de que é possível que a política brasileira viva um momento especialmente danoso: adernar um radical de direita à boa política econômica e viver os riscos políticos à democracia. Se Bolsonaro caminhar bem nas pesquisas e, assim, permanecer intacto às dissecações de seu pensamento (ou ausência dele), é possível que ele cative hostes abandonadas por meio do voto e elites perdidas por via de suas "modernas" propostas econômicas.

Quanto à esquerda, Ciro aí incluso, muito embora sua estirpe esquerdista seja bem desconhecida, será preciso condensar mais o isolamento de Lula em Curitiba para sabermos como será o posicionamento dessa faixa política frente ao eleitor.

A ausência de Lula no cenário parece que será mais longa do que ele deve estar a imaginar naquela cela da Polícia Federal ou, cá de fora, alguns analistas prognosticam. Na política, do ponto de vista eleitoral, caminhamos para definições mais rápidas depois do espetáculo de São Bernardo do Campo nesse último fim de semana. Tempos obscuros.

outras edições
Francisco Petros

Francisco Petros é advogado, sócio-responsável pela área societária e de mercado de capitais do escritório Fernandes, Figueiredo Advogados e economista, pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capitais, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).