Lamentavelmente as próximas eleições
prometem um tremendo vazio político

Corre solta a Copa do Mundo, estaciona a economia brasileira e dá marcha ré a política. O Brasil persiste em caminho perigoso, recheado de riscos institucionais, além dos econômicos. Juízes exorbitam suas funções com decisões descabidas e, até mesmo, no âmbito daquilo que é extra petita. Os políticos estão focados nas eleições, não carregam projetos, não trazem esperanças e falam com o dito povo como se dele fossem os feitores. O governo cambaleia entre denúncias e o completo sumiço da pauta. Enquanto isso, vê comentários da mídia sobre certa tentativa de "unir o centro político".

Difícil extrair desse projeto algo que seja consistente, sobretudo quando realisticamente verificamos o que seria esse tal de "centro político". Ele inclui, um candidato sem votos (Henrique Meirelles), uma candidata com um partido irrelevante (Marina Silva), um ex-candidato (Rodrigo Maia), um candidato regional (Álvaro Dias) e, por fim, o candidato do maior partido, mas que se comporta como se fosse do menor (Geraldo Alckmin). Ademais, esses candidatos passaram os últimos anos escondendo seus projetos do distinto eleitor, articulando nos bastidores com políticos que rodeiam o atual governo, especulando com discursos inconsistentes, sem nada propor, sem seduzir o povo para a necessária refundação do Brasil. Ou seja, trata-se de manco "centro" que se vier a vingar nas urnas, talvez nem saiba o que fazer no governo. Ou terá de emprestar recursos políticos de algum guru solto pelo mundo.

O Brasil não precisa de "gerentes" para tocar a bodega na qual se transformou esse país "deitado eternamente em berço esplêndido". Já deveríamos parar de fazer a pregação religiosa em torno do equilíbrio fiscal e da responsabilidade em relação à inflação e ao câmbio. Pelo amor de Deus: isso é primário! Não merece o debate, apenas a aceitação. Bons políticos deveriam ser capazes de ter incorporado a ideia de que essa ordem é necessária. O povo já sabe disso! Não quer inflação! Não quer privilégios! O que o povo quer saber é como vamos crescer e se desenvolver. Isso requer projetos ambiciosos, visão aberta para os horizontes de um mundo que é digital, tecnológico, vanguardista! Estamos no século XXI e o debate político do Brasil é do século XIX. Ou não é?

No país dos analfabetos, desdentados, doentes, ignorantes, pobres em suas favelas não haverá desenvolvimento econômico e social sem projetos ambiciosos! Simples assim. O discurso liberal do "Estado Mínimo" não cola nem nos EUA! O país que muda a dinâmica do mundo é a China comunista! O discurso da esquerda atrasada na defesa de uma "Estado-empresário", por exemplo, beira o ridículo. Como alguém pode acreditar que uma Eletrobras ou uma Petrobras pode mudar o cenário da "quarta revolução industrial", na expressão de Klaus Schwab do World Economic Forum?

Não deveria ser difícil à inteligência política do Brasil verificar que os discursos estão vencidos e que o futuro é aqui e agora. A desigualdade social está aumentando ao redor do globo, o meio ambiente se deteriora, as instituições políticas e econômicas estão sob desafio gigantesco frente à modernidade e o significado de "progresso" muda a cada dia. Nesse contexto, a mediocridade brasileira quer discutir um "tal de centro político", um arregimento de partidos sem significação social e sem penetração nas imensas massas de miseráveis. Obviamente, não estou a desprezar os riscos oriundos de Jair Bolsonaro e de Ciro Gomes. Por entre os dois apenas corre a certeza da velhice do discurso e do projeto. Todavia, reagir a esses dois personagens com uma articulação medíocre e sem discurso é sinal de inconsequência e irresponsabilidade. Além de total insensibilidade para o que estamos a viver.

Será preciso muito mais do que encontros noturnos regados a vinho e promessas de cargos e salários para superarmos a terra devastada que se tornou esse belo e promissor país.

Se se quiser articular um "centro" que esse seja de ideias que, levadas ao povo, possam ser compreendidas como parte de um necessário mundo novo. A sociedade brasileira está perdida e intolerante em relação à mesquinharia, à corrupção, à ausência de sonhos realizáveis, ao jogo absolutamente mentiroso que se tornou a política por esses lados. O verdadeiro "centro político" tem de mudar o modelo mental da atualidade e jogar o país à frente! Lideranças tem de ser orgânicas.

A cada dia que passa caminhamos na direção errada. Lamentavelmente as próximas eleições prometem um tremendo vazio político o qual será preenchido: ou teremos a aceleração do atraso e da mediocridade com riscos institucionais gigantescos ou a letargia desértica sem terra prometida.

Os candidatos postos à prova estão acanhados e sem projeto. Só há verborragia de quinta categoria.

A formação de um "centro político" requer a gravitação de líderes sociais em torno de ideias para um mundo novo. Liderar exige o esforço orgânico de prometer e cumprir os projetos transformadores. O resto é balela. O "centro" do qual se fala é periferia do mundo que corre lá fora.

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Francisco Petros

Francisco Petros é advogado, sócio-responsável pela área societária e de mercado de capitais do escritório Fernandes, Figueiredo Advogados e economista, pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capitais, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).