Há dois anos escrevo semanalmente sobre futebol. Raramente falo sobre pessoas. Acho que me aventurei a falar apenas de Raí, Sócrates, Casagrande, Juca Kfouri e Tite. Talvez tenha esquecido de alguém. Mas não haverá mais do que um ou dois esquecidos.

Apesar de minha preferência por temas estruturais, mais um nome entrará naquela lista: Diego Lugano.

A opção pelo tema não decorre de ligação clubística – apesar, é claro, da inegável associação e influência que exerce sobre mim. O motivo, ao contrário, é humanista.

Para os são-paulinos, Diego Lugano não é humano; é Dio5. Essa também era a minha percepção até conhecê-lo e descobrir que, desconsiderada a mitologia, ele é um sujeito extremamente evoluído e consciente de sua missão social.

Nos tempos atuais, em que o conceito de valor se perdeu ou corrompeu, sua utilização merece, sempre, cuidado. Mas é a partir dele, ou melhor, de um conjunto de valores, que se pode compreender o atual diretor do São Paulo.

A gratidão talvez seja o mais acentuado deles. Gratidão pelo clube que o formou – o que, para os propósitos deste texto, fica em segundo plano; apesar de, para o autor, se destacar no primeiro – e, sobretudo, pelo esporte que o criou.

É normal que profissionais de quaisquer áreas atribuam às suas profissões o crédito pelos sucessos pessoais. É comum que se diga, por exemplo: "devo tudo aos palcos"; ou "ao jornalismo"; ou ainda ao "futebol". É incomum, porém, que se reconheça, na profissão – ou na atividade profissional – algo maior do que o meio de satisfação de interesses ou sonhos pessoais.

Não é disso, apenas, de que se trata o futebol. A realização de sonhos pessoais faz parte do processo, mas não se confunde com suas funções sociais e econômicas.

E é justamente aí que se revela, novamente, e desta vez fora de campo, a grandeza de Diego Lugano. Ele sabe que não há, no Brasil - e na América do Sul – caminho mais adequado para inserção de crianças e formação de cidadãos do que pelo futebol.

Essa constatação é manipulada, aliás, pelos donos do poder futebolístico, que erguem obstáculos para impedir o desenvolvimento humano e dos times, tornando-os reféns de um sistema hermético, interesseiro e corrupto.

A dominação é mantida pela inaceitável conivência do Estado, que (i) não oferece a legislação adequada para formação de um ambiente sustentável, (ii) julga com o propósito de manter o status quo e (iii) não arquiteta e executa políticas públicas compassadas com a grandeza do futebol no Brasil.

As consequências, todos já sabem. O que talvez nem todos conheçam é que, ao lado de poucos ídolos midiáticos, o futebol deixa, pelo caminho, milhares ou milhões de meninos que apostaram tudo, absolutamente tudo, numa carreira profissional não materializada, e produz um enorme contingente de jogadores que luta, como todo brasileiro, pelo duro sustento da família e que, após uma curta carreira, aumentará a estatística do desemprego.

Esse triste modelo não se sustenta. Não é digno. É desumano. Acho – e aqui se trata de um achismo pessoal – que a luta contra esse estado de coisas será – ou já é – a nova missão de Diego Lugano.

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Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro é presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório Lehmann, Warde & Monteiro de Castro Advogados.