Abro a coluna com a sabedoria do prefeito de Santa Rita do Sapucaí, nas Minas Gerais, em tempos de outrora.

Quatro sinais

Certo prefeito de Santa Rita do Sapucaí, nas Minas Gerais, ao ver nomeado um amigo para comandar o DETRAN, correu a Belo Horizonte, e não se fez de rogado. Foi logo pedindo:

- Amigo, me arranje uns sinais luminosos para minha cidade. Vai ser o maior sucesso. Vai ajudar muito a minha popularidade.

O diretor, tomado de surpresa, ante tão inusitado pedido, procurou administrar a euforia do prefeito, mas não tinha como escapar à pressão:

- Compadre, está difícil arrumar esses aparelhos. Tenho de fazer uma grande reforma aqui na capital. Mas vou me esforçar para lhe arrumar quatro sinais. Mas, por favor, não espalhe. Insisto: não espalhe.

E assim foi. Ao chegar a Santa Rita, um mês depois da entrega, ficou embasbacado. Viu os quatro sinais colocados no mesmo lugar: o centro da cidade. Perguntou ao alcaide: "por que você mandou colocar todos eles naquele lugar"? Sorriso no canto da boca, o prefeito respondeu:

- Ora, compadre, você esqueceu? Me lembro bem: você bem que me pediu para não espalhar os sinais de trânsito.

E Meirelles, vai ou não vai?

A pergunta do início da semana: e aí, Henrique Meirelles emplacará ou não? Toma o lugar de Michel Temer como candidato do MDB. Mais uma vez, usemos nossas bolas de cristal para tentar distinguir os caminhos do ex-ministro da Fazenda do atual governo. Procuremos agrupar fatores e razões sob algumas hipóteses. A primeira é a economia. O Brasil saiu da pior recessão de sua história e, segundo se sabe, por motivos de política econômica levada a cabo pelo então ministro Meirelles. Mas esse fator começa a ser embrulhado em papel grosso. E tende a ser jogado de lado.

E o desemprego?

A melhoria da economia, no entanto, não ocorre de maneira tão rápida quanto alguns porta-vozes chegaram a anunciar. O consumo voltou, mas não com tanto ímpeto. As margens sentiram leve brisa nos rostos de seus ocupantes, mas não a ponto de proporcionar um clima de conforto. Até porque os efeitos da recuperação da economia se fazem sentir de maneira mais palpável pela via do emprego. E os números nessa área são pequenos. O desemprego afeta cerca de 13,5 milhões de brasileiros.

PIB da felicidade

O Produto Interno Bruto da Felicidade não atingiu um índice que possa comprovar generalizada sensação de conforto social. A insegurança, com a violência desbragada, campeia. Em todos os espaços, os índices de criminalidade se expandem. As metrópoles e as grandes cidades expõem suas condições nervosas: trânsito congestionado, sistemas precários de mobilidade, gasolina e diesel aumentando, impostos devendo ser pagos nos prazos sob pena de multas, etc. O Bolso não está cheio para deixar a Barriga satisfeita, o Coração comovido e a Cabeça agradecida. A equação BO+BA+CO+CA está desarrumada.

Déficit de carisma

Ademais, Henrique Meirelles não acrescenta pontos ao estoque de carisma. Lula ainda tem. Outros candidatos quase zeram nessa pontuação. Meirelles exibe uma fonética meio arrastada, como se estivesse cansado de chegar ao final da frase. Sua cabeça arredondada, apresentando uma careca de muito respeito, insere seu perfil na galeria das figuras enfileiradas nas fotos de preto e branco dos nossos antepassados. Se ao menos a cara do velhinho irradiasse simpatia.

Lembrando Getúlio?

Não tem de Getúlio Vargas, cantado em versos por Haroldo Lobo, "Retrato do Velho" (marcha/carnaval), na campanha presidencial de 1950: "Bota o retrato do velho outra vez; bota no mesmo lugar; o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar. Eu já botei o meu; E tu não vai botar? Já enfeitei o meu, e tu vais enfeitar? O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar".

Senhor imponderável

Mas em política tudo pode acontecer. Digamos que caia um raio que abata a candidatura de Geraldo Alckmin; digamos que os outros candidatos do centro – Álvaro Dias, Flávio Rocha, João Amoedo, Paulo Rabelo de Castro – não consigam empolgar o eleitor; digamos que Marina Silva dê mostras de fragilidade; digamos que a metralhadora ambulante, Ciro Gomes, apresente defeitos na campanha. Digamos que os outros candidatos de esquerda - Boulos, Manuela – não se unam. E, por último, façamos de conta que Meirelles se sobressairá por inteiro com sua linguagem trôpega e corra como um bom cavalo de corrida.

Ou um milagre de Sant'Ana

Se isso ocorrer, o Senhor Imponderável de Anápolis/GO aparecerá com a testa pingando de suor e exibindo ares de vitória no calor da primeira semana de outubro. (Quem é mesmo a Padroeira de Anápolis?) Meu Deus, quanta coincidência: Senhora Sant'Ana, que é a padroeira de minha querida cidade Luís Gomes, uma serra a 750 metros de altura, nos confins do RN, PB e CE. Terrinha onde vim ao mundo.

A maior probabilidade

Deixando o campo de hipóteses e abstrações, mas continuando a usar minhas bolas de cristal, agora sobre um pilar de razoabilidade, as projeções mais racionais conduzem o raciocínio de que o quadro da política, o estado social, o arco ideológico e o jogo de parcerias, em processo de articulação, apontam um segundo turno abrigando: de um lado, as forças e conjuntos de centro-direita e, de outro, as forças e conjuntos de centro-esquerda. Os extremos podem produzir, hoje, grande volume de expressão, mas seus dois principais protagonistas arriscam-se a não ir a bom termo.

Os dois extremos

De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva. Será enquadrado na Lei da Ficha Suja. Não sairá candidato, mesmo com todos os esforços do PT para viabilizar seu nome nas urnas. De outro, Jair Bolsonaro. Gira em torno de 18%. Não deverá conseguir formar ampla maioria, em função do retalho ideológico que encarna: extrema direita, armamentista, despreparado, um perfil que se amolda ao conceito de endurecimento das regras no Brasil.

O meio e suas ondas

O eleitorado racional, que reúne grupamentos de centro, tenderá a se afastar dele mais adiante. O meio social funciona como a pedra jogada no meio do lago. As ondas correrão até as margens. Pelas coisas absurdas que propagará. Volto a insistir com a regra: na política não há certezas prévias. Poderemos assistir o reingresso em cena do Senhor Imponderável dos Azares. Nesse caso, um capitão fardado de presidente poderá estampar sua cabeleira sob o sol ardente do Planalto Central.

Zuzinha, senador

Mário Covas Neto, vereador, filho do saudoso ex-governador de São Paulo, deverá ser candidato a senador pelo Podemos. Covas é advogado e foi reeleito vereador nas eleições de 2016 com 75.583 votos, sendo o quinto parlamentar mais votado no pleito. Atualmente, é membro da Comissão de Administração Pública, da qual já foi presidente em seu primeiro mandato na Casa.

PSDB

Quem quer ser o candidato a senador do PSDB é o deputado Ricardo Tripoli. Mas não concordam Cauê Macris, Pedro Tobias e Mara Gabrilli. Os três querem também ser candidatos.

Amoedo no Roda Viva

João Amoedo, que criou o partido Novo e é candidato à presidência da República, foi o entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira. Fala bem. Mas tudo muito alto, genérico, utópico, abstrato. Se eleito, passa a ideia de que vai governar unicamente com os congressistas do Novo a serem eleitos. Um liberal nas nuvens. De boas intenções, a terra da fornalha permanente está cheia. Amoedo, pise com os pés na dureza de nossa realidade...

CNC, sombra e luz

Declarações do candidato à presidência da CNC, José Tadros, devem ter deixado seus pares preocupadíssimos. O presidente da Fecomércio-AM há 32 anos não percebe sinais dos tempos: atacou o jornal Valor, dando respostas estarrecedoras, como no caso das acusações de nepotismo e sobre "foro íntimo" na sua ausência de proposta sobre reeleições. Disse que o debate sobre a sucessão na entidade que representa milhões de empresas e empregos não deveria ser público, e sim "interno", nas sombras. O outro candidato, deputado Laércio Oliveira, é criticado pelo grupo de Tadros por defender a renovação na CNC e externalizar o debate sobre seus desafios. Ao contrário de Tadros, Laércio possui amplas relações com a base empresarial da CNC, com os demais setores econômicos e com a classe política. Laércio estaria jogando muita luz na eleição, o que não interessa.

Protagonismo

Laércio acredita que, como parlamentar e à frente da CNC, poderá defender ainda mais e valorizar a atuação das Fecomércios, do SESC e do SENAC, como fomentar a preparação das entidades para os desafios da economia digital. Exemplo de sinergia dos mandatos foi a gestão do então deputado Armando Monteiro, que ampliou o protagonismo da CNI. Sempre coerente na defesa dos setores do comércio, serviços e turismo, o parlamentar relatou a Lei da Terceirização e defendeu a Reforma Trabalhista, mesmo contrariando a visão de seu partido. Laércio é visto pelos outros presidentes da Fecomércio como uma pessoa confiável.

Fecho a coluna com o Ceará

Que mundo doido...

- É o diabo, o mundo endoidou!

Exclamava Maneco Faustino nas ruas de Limoeiro/CE. E completava:

– Veja vosmicê: tá se vendo estrela a mei dia; já hai galinha com chifre; cangaceiro dá esmola pra fazer igreja; já apareceu bode que dá leite; chove no Ceará em agosto. Muié já se senta em cadeira de barbeiro.

Pedro Malagueta confirmava:

– Tá mesmo, cumpade, o mundo endoidou. Tenho três filha, duas casada e uma solteira: as duas casada nunca tiveram menino; agora a solteira todos os ano me dá um neto..

Marketing eleitoral

Alavancas do discurso

Nesse momento, os pré-candidatos começam a se preparar para o pleito. Este consultor oferece pequena ajuda, mostrando como conseguir a adesão dos ouvintes e participantes de um evento de massa ao discurso. Como conseguir atrair a atenção da multidão? Pincemos pequenas lições dos clássicos da política. Existem alguns símbolos detonadores e indutores do entusiasmo das massas em, pelo menos, quatro categorias. Eis as quatro alavancas psíquicas:

1. Alavancas de adesão - Discurso voltado para fazer com que a população aceite os programas, associando-os a valores considerados bons. Nesse caso, o candidato precisa demonstrar a relação custo-benefício da proposta ou da promessa.

2. Alavancas de rejeição - Discurso voltado para o combate à coisas ruins (administrações passadas, por exemplo). Aqui, o candidato passa a combater as mazelas de seus adversários, os pontos fracos das administrações, utilizando, para tanto, as denúncias dos meios de comunicação que funcionam como elemento de comprovação do discurso.

3. Alavancas de autoridade - Abordagem em que o candidato usa a voz da experiência, do conhecimento, da autoridade, para procurar convencer. Sob essa abordagem, entram em questão os valores inerentes à personalidade do ator, suas qualidades pessoais. Quando se trata de figura de alta respeitabilidade, o discurso consegue muita eficácia.

4. Alavancas de conformização - Abordagem orientada para ganhar as massas e que usa, basicamente, os símbolos da unidade, do ideal coletivo, do apelo à solidariedade. É quando o político apela para o sentimento de integração das massas, a solidariedade grupal, o companheirismo, as demandas sociais homogêneas.

Brechas na lei

O advogado, no leito de morte, pede uma Bíblia e começa a lê-la avidamente. Todos se surpreendem com a conversão daquele homem e perguntam o motivo. O advogado doente responde: "Estou procurando brechas na lei".

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Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.