Abro a coluna com uma homenagem à seleção francesa, campeã do mundo.

Dirran...Dirran...?

Dirran (com "biquinho" para parecer um francês correto), galego meio sarará, entroncado e de pernas curtas, jogava no Clube Atlético Potengi, no Rio Grande do Norte. Um dia, disputava no Machadão uma partida contra o Potyguar de Currais Novos, pela 2ª divisão do campeonato potiguar. O jogador atleticano era o destaque. Fazia dribles desconcertantes e lançamentos perfeitos. Corria como Mbappé, esse extraordinário centro-avante da seleção francesa. Fechou as glórias com um golaço. O narrador da rádio Poti gritava: "Dirran é um craque", "Dirran, revelação do futebol norte-rio-grandense". Dirran prá cá, Dirran pra lá. No final do jogo, o Clube Atlético Potengi perdeu por 3 x 1. Mas o destaque foi Dirran. Vendo todo aquele sucesso, um jovem repórter da rádio Poti correu para fazer uma entrevista com o craque na beira do gramado. Disparou uma bateria de perguntas: "Você tem parentes na França? Qual a cidade onde nasceu, Monsieur? Como veio parar no Brasil? Pode comparar o futebol europeu com o futebol brasileiro? Qual a origem de seu nome? Já jogou na seleção francesa? Espantado, boquiaberto, o jogador tascou ao incrédulo repórter a inesperada resposta: "Pera aí, meu sinhô, num é nada disso; meu apelido é C... de Rã, mas como num pode falar na rádio, então, eles abreveia".

(Historinha enviada pelo amigo Álvaro Lopes)

Rússia também vitoriosa

A Copa foi um sucesso extraordinário para a Rússia, que recebeu cerca de um milhão de turistas. Gastou por volta de R$ 36 bilhões para construir estádios e preparar infraestrutura. Valeu muito. As empresas globais, que patrocinaram a Copa, acorreram ao país. Os turistas ficaram encantados com a beleza da Rússia e a hospitalidade dos russos. O país ganha com a Copa uma inserção mais intensa nas Nações do planeta. Coisa que o comunismo não conseguiu. Vladimir Putin, com o alto prestígio, adensa sua estatura de estadista. Os aspectos negativos – prisão de oposicionistas, censura, controle do cotidiano – ficam num plano inferior. Exibe estatura maior que o aloprado Trump.

Brasil pós-Copa

O Brasil volta a viver a dura realidade. Sem as expectativas que pairavam sobre a população. Sem o gosto doce de uma grande vitória. Substitui-se o canto: "a taça é nossa" por "a traça é nossa". O país amarga a derrota. Sob uma chuva de críticas a Neymar, uma estrela que desce das altitudes celestiais para o terreno árido das críticas. Com suas 40 tatuagens no corpo – representando poder, glória, luxo, vitória, guerra, romantismo, paixão – Neymar acabou ganhando a identidade de um logotipo ambulante. O sucesso puxou o atleta para o plano das vaidades, da arrogância e de autossuficiência.

Ferrari sem adesivos

Pois é. Um repórter se aproxima de Cristiano Ronaldo e joga a pergunta: "Por que você não tem tatuagem como Neymar"? O craque não titubeia: "você já viu uma Ferrari com adesivos"?

O mergulho na política

Nos próximos três meses, a pauta será eleição, competição eleitoral, endeusamento e condenação de protagonistas, palpites de todos os tipos, militantes trocando ofensas, acusações. Teremos um pleito sob um país dividido entre alas, grupos, partidos. O racha é geral. Seja qual for o eleito (a), o Brasil chegará bastante cindido na entrada de 2019. A meta do próximo governante, a par de suas ações na economia e na vertente social, será a de unir as bandas descoladas de um território semeado por ódio e litigância.

Apontamentos

Entremos no capítulo das observações que merecem atenção:

1. Chances - Qualquer um dos protagonistas que pontuam na planilha de índices de intenção de voto poderá ganhar passaporte para entrar no 2º turno, dentre eles: o candidato do PT (Lula ou o plano B do PT, Jaques Wagner ou Fernando Haddad), Jair Bolsonaro, Ciro Gomes, Marina Silva e Geraldo Alckmin.

2. 2º turno - A campanha tende a ter um 2º turno, sendo praticamente impossível algum candidato levar a melhor logo no domingo, 7 de outubro.

3. Mais prováveis hoje - Os cenários mais viáveis, hoje, colocam no 2º turno Bolsonaro e Ciro; Bolsonaro e Marina; e Bolsonaro e candidato do PT. São os que lideram as intenções de voto. Ante o fato de que 64% dos eleitores dizem não saber em quem votar, Alckmin e Álvaro Dias também poderão integrar as alternativas para ingresso no 2º turno.

4. Onda racional - É lógico esperar por uma onda racional, por onde deverão surfar os grupamentos das classes médias, a se contrapor às ondas emotivas já em curso.

5. Defesa da ordem - A preferência por Jair Bolsonaro é a adesão ao seu discurso de ordem contra a bagunça, de segurança social contra o caos representado pela violência nas ruas e, ainda, pelos escândalos em série que atingem os eixos da vida política.

6. Pouco tempo - Se não somar tempo de rádio e TV, contando com apenas sete segundos do tempo de seu partido, o PSL, Bolsonaro pode ser engolfado por candidatos com maior tempo de exposição. No bloco diário de 25 minutos, se não fizer coligação, o PSL terá direito a sete segundos; já para as inserções na programação diária de 70 minutos, caberá ao PSL 19 segundos.

7. Maior tempo – Os três maiores partidos – PT, MDB e PSDB – terão 34% do tempo de TV e rádio.

8. Redes sociais - As redes tecnológicas – internet – não conseguirão, sozinhas, dar vitória a candidatos. Se isso ocorrer, estará revogada a lei da comunicação, essa que garante visibilidade e força aos atores da política junto à sociedade.

9. Debates - Os debates entre candidatos terão alta importância na estratégia de captar o eleitorado e consolidar a decisão de voto. O bom desempenho funcionará como cola para adesão mais forte; já o mau desempenho resultará em descolamento de eleitores e migração para candidatos que apresentarem boa performance.

10. Linguagem - O medo que alguns candidatos provoca, em função de atitudes, gestos, linguagem, caso não seja bem administrado, poderá ser fatal para a viabilidade de uma vitória. Atenção, Ciro Gomes e Bolsonaro. (Este, porém, tende a agradar ao seu eleitorado, que clama por um discurso duro: "bandido bom é bandido morto; policial bom é policial que mata").

11Real politik – Qualquer que seja o eleito, só agregará condições de governar caso pratique a real politik, a política de arranjos e combinações, a parceria com os partidos, a entrega de fatias de poder aos entes partidários vitoriosos. Se não o fizer, terá passagem abreviada pelo Palácio do Planalto.

12. Pressão social - O Brasil ainda terá uma eleição à moda antiga, com engodos e amaciamentos embalando os discursos, alianças não estribadas pela ética, mas, ao correr do ano político de 2019, por continuada pressão social, serão plantadas as condições para as reformas necessárias à abertura de um ciclo de grandes mudanças na política.

13. Copo transbordando - O copo está transbordando. Os eleitores, até por falta de elementos novos, acabará votando nos velhos perfis, mas fará continuada pressão para a inauguração de um novo tempo. Manter o status quo redundará em intensas mobilizações sociais, na esteira de uma democracia participativa em ritmo de crescimento.

14. Fundo eleitoral – De R$ 1,7 bilhão do Fundo Eleitoral, MDB terá 234,2 milhões; PT, 212,2 milhões; e PSDB, 185,8 milhões.

15. 429 Deputados na reeleição – Até o momento, 429 deputados Federais, entre os 513, concorrerão à reeleição. Ou seja, cerca de 83% do atual corpo parlamentar.

A eleição paulista

A eleição em São Paulo, como a eleição para presidente, também é uma incógnita. João Doria, com 19%, lidera as pesquisas, mas seu índice de rejeição na capital é grande. Daí o desafio que a ele se impõe: administrar a rejeição, que alcança mais de 50%. O 2º lugar é de Paulo Skaf, do MDB, com 17%. O 3º lugar é ocupado pelo governador Márcio França, PSB, um pouco acima de Luiz Marinho, do PT. França tem bom potencial para subir. Tem perfil municipalista e pode subir bem, na esteira da máquina governamental. O eleitorado paulista soma cerca de 35 milhões de eleitores.

A sabedoria romana

Nem sempre quantidade ganha a guerra. O armênio Tigrane, instalado sobre uma colina com 400 mil homens, viu avançar o exército romano, que contava apenas com 14 mil soldados. Tigrane, galhofeiro, gritou : "Para embaixada é muito, para combate é pouco". Antes do pôr do sol, o pequeno exército romano infligiu uma derrota e enorme carnificina ao gigantesco exército armênio. A criatividade é, ainda, a arma que vence pela surpresa.

Onde estão os eleitores

Este ano, 146,4 milhões de eleitores têm direito a comparecer às urnas. Mas, como sabemos, o chamado Não Voto (abstenções, votos nulos e brancos) cortará formidável parcela desses votos. O Sudeste lidera o ranking eleitoral, com 42,9% dos eleitores, seguido do Nordeste, com 26,7%, Sul, com 15,2%, Norte, com 7,9% e Centro-Oeste, com 7,3%.

Mulheres dominam

As mulheres somam, hoje, 52% do eleitorado, atingindo cerca de 76 milhões de eleitoras. A faixa etária de 45 a 49 anos é a maior parcela entre as mulheres (18,710.832), vindo, a seguir, a faixa entre 25 a 34 anos (16.241,206) e, em terceiro lugar, a faixa entre 34 a 34 a 44 anos (15.755.020). Calibrem o discurso para esses contingentes, senhores candidatos.

Epílogo

"Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto". (Jorge Luis Borges)

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Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.