O mercado financeiro anda nervoso por não saber, ou não conseguir prever com razoável margem, o desfecho da sucessão presidencial. Ou por achar que o eventual eleito pode ser tentado a heterodoxias, pois os resultados imediatos da ortodoxia não têm sido bons. Ou por acreditar que o ungido não terá potência para arrancar do pântano e ganhar velocidade.

O nervosismo do mercado nasce da incerteza sobre se 1) o Brasil vai eleger um presidente comprometido com privatizações, desregulamentação e austeridade fiscal; e se, mesmo nesse caso, 2) ele terá força para fazer valer no Congresso seu programa de governo. Junte-se a isso o quadro internacional, e o dólar continua subindo a ladeira.

Um argumento de certo peso contra o programa econômico perseguido por Michel Temer é não ter sido aprovado na urna. Bem, desta vez, caso a eleição produza um presidente de direita, da tonalidade que for, o público estará sabendo do que se trata. Todos os nomes desse campo estão comprometidos com a ponte para o futuro temerista.

Mas infelizmente ainda não apareceu o candidato ideal. Um que simultaneamente defenda a tríade liberal listada mais acima, tenha muitos votos e projete um ambiente de governabilidade estável. Geraldo Alckmin vai bem no primeiro e no terceiro quesitos. Jair Bolsonaro nos dois primeiros. O mercado torce para que o tucano aproveite bem a TV.

Outro complicador são as circunstâncias do PT. O partido precisou pender à esquerda para segurar seu mercado eleitoral, e a operação vem tendo sucesso pelo ângulo político. Não se veem dissensões sérias internas nem desafiantes viáveis externos. Mas não existe almoço grátis, e o petismo manter-se competitivo aguça as naturais inquietações do capital.

E tem também Marina e Ciro. Ela já faz tempo que procura cercar-se de economistas de currículo liberal. Há anos ela oferece previsibilidade na economia. É o que vem faltando a ele projetar. Mas talvez não possa ser diferente no caso do pedetista: ele precisa de votos dos dois lados, precisa de alguma ambiguidade se quiser ter chance de passar ao segundo turno.

O mercado está nervoso? Sim, mas e daí? Se o leitor ou leitora deixar as idiossincrasias de lado, verá que que resposta é "e daí nada". Seja quem for o próximo presidente, ele enfrentará constrangimentos orçamentários e políticos que reduzirão a um mínimo sua margem de manobra na economia. Com qualquer resultado, pouca coisa vai mudar, ao menos no curto prazo.

O eleito assumirá com uma preocupação ultraprioritária: criar empregos. Precisará estimular fortemente os investimentos. Para isso, terá de se entender com o empresariado. Ou seja, não vai abrir o mandato arrumando confusão e gerando incerteza. Ao contrário, vai procurar evitar turbulências e inocular otimismo. Até para influir mais no Congresso.

O próximo presidente trará notícias ruins. Corte de gastos, reforma da previdência. Precisará compensar com notícias boas. E a única possível no Brasil de 2019 será que o emprego voltou. Mas se é o trabalho que acrescenta valor à mercadoria, quem cria, ou destrói, postos de trabalho é o capital. Uma verdade contra a qual nunca é inteligente brigar.

Cada um compra e/ou vende dólar na hora que quiser, mas os espertos venderão na turbulência e recomprarão quando o ambiente se desanuviar, lá por novembro e dezembro. E os mais espertos ainda? Estes ocuparão o tempo até lá bolando ou desengavetando projetos que o novo governo possa apresentar como boas notícias para a criação de empregos. #FicaaDica.

E tem outro detalhe: seja qual for o governo, tudo precisará ser negociado com o Congresso, que já se sabe mais ou menos como será.

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As entrevistas com candidatos têm parecido menos entrevista e mais debate eleitoral. O jornalista coloca-se na posição de adversário político do entrevistado. Mas tudo na vida tem dois lados. Quem está acostumado a bater, de repente percebe que também pode ser alvo. Talvez seja inevitável, mas não deixa de ser novidade essa volta do cipó de aroeira.

Até a próxima semana.

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