Como se fossem Quixotes do futebol, dois dos 32 comandantes das seleções que disputarão a Copa têm todo o direito de sonhar o sonho quase impossível de alcançar uma estrela quase inalcançável, repetindo em campos do Brasil os feitos de Mário Jorge Lobo Zagallo e Franz Beckenbauer, únicos campeões do mundo como jogador e como treinador. São o francês Didier Deschamps, capitão da França campeã de 1998, e o alemão Jürgen Klinsmann, atacante da Alemanha campeã de 1990.

Que é difícil, é. Beira o impossível. Zebras não pastam na Copa do Mundo. Não importa quão distante o sonho, porém Jürgen Klinsmann pode ser o segundo alemão a ganhar a Copa em dose dupla. Basta dar Estados Unidos na cabeça. Na primeira fase, aliás, Alemanha e EUA se pegam. Para os norte-americanos, mesmo treinados por um antigo craque alemão, será combater o inimigo imbatível. E da primeira fase talvez eles nem passem, permitindo que alemães e os portugueses sigam em frente. Klinsmann já treinou equipes melhores – a seleção alemã e o Bayern de Munique.

O próprio Didier Deschamps fez questão de avisar, há poucos dias, que também não se espere tanto da sua França: "Não podemos ter a pretensão de estar entre os favoritos, como são as equipes que estão jogando em alto nível nos últimos quatro ou cinco anos. Vamos para o Brasil pensando em chegar o mais longe que pudermos". E talvez tenha razão. A França pós-Zidane não deu em nada. Depois dos títulos mundial em 1998 e europeu no ano 2000, les Bleus ainda foram vice-campeões do mundo em 2006, mas deram vexame nas Eurocopas de 2008 e 2012 e na Copa de 2010. E sofreram até a repescagem para garantir uma vaga na Copa que terá o Brasil como anfitrião e candidatíssimo ao título.

De qualquer maneira, é bem menos difícil imaginar Frank Ribéry do que Clint Dempsey como campeão do mundo. Ponto para Deschamps e sua França, que, pelo menos na primeira fase, terão relativa moleza, enfrentando adversários como a Suíça, o Equador e Honduras, o que lhes dá a chance de sair do grupo E em primeiro lugar para enfrentar nas oitavas a Bósnia ou a Nigéria. Portanto, não é tão difícil que os franceses cheguem às quartas de final. Daí em diante, as coisas se complicarão. Disputar o caneco seria alcançar a estrela inalcançável.

Nada indica que Zagallo e Beckenbauer venham a acolher um novo sócio em seu exclusivíssimo clube. E ainda que o sonho impossível de Klinsmann e Deschamps se materialize no Maracanã, a Copa de 2014 será uma grande oportunidade para o Brasil homenagear um dos seus maiores campeões em todos os tempos. Nem Beckenbauer nem Klinsmann nem Deschamps terão feito tanto quanto o nosso Zagallo, brasileiro nascido nas Alagoas, criado no Rio de Janeiro, carioquíssima figura, bicampeão do mundo como jogador, tendo participado de apenas duas Copas e atuado em todos os jogos, campeão como treinador oito anos depois do bi em campo e novamente campeão em 1994, dessa vez como coordenador técnico da seleção comandada por Carlos Alberto Parreira.

Os “fracassos” de Zagallo à frente da seleção enriqueceriam o currículo de alguns dos mais badalados treinadores da história do futebol – quarto lugar na Copa de 1974, quando o cracaço Beckenbauer ganhou seu primeiro título, e segundo na Copa de 1998, quando o eficiente volante Deschamps ergueu a taça de campeão do mundo.

Meia do América do final dos anos 1940 que se transformou em participativo ponta esquerda do Flamengo na década seguinte até se transferir para o incomparável Botafogo de Garrincha, Didi e Nilton Santos, Mario Jorge Lobo Zagallo tinha treinado apenas os juvenis e os profissionais de General Severiano antes de imprimir sua marca pessoal à seleção tricampeã de 1970 e dar prosseguimento à trajetória de maior vencedor da história das Copas do Mundo.

Os brasileiros o amam, mas boa parte da mídia ainda lhe deve o legítimo reconhecimento, como fez questão de lembrar o técnico francês Aimé Jacquet, ainda no Stade de France, logo depois de vencê-lo na decisão de 1998 e vê-lo massacrado pelos jornalistas na entrevista coletiva: "Antes de ouvir qualquer pergunta, quero dizer que eu precisaria de mais uma ou duas vidas para sonhar com as glórias que este senhor já conquistou no futebol".

Faz de conta

Na semana passada, quatro dias depois da morte do trabalhador Fábio Hamilton da Cruz, o Superintendente Regional do Trabalho e Emprego em São Paulo, Luiz Antonio Medeiros, comentou com o repórter Alex Sabino, da Folha, a situação da Arena Corinthians: "Se esse estádio não fosse da Copa , os auditores teriam feito um auto de infração por trabalho precário e paralisado a obra. Estamos fazendo de conta que não vemos algumas coisas irregulares". E escancarou o jogo sujo: "Isso é trabalho precário. Não vamos nem entrar nesse assunto porque vai atrasar ainda mais a obra. Falei com o ministro e ele deu respaldo. Estamos fazendo de conta que não estamos vendo".

No dia seguinte, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, negou ter dado respaldo ao correligionário, mas o manteve no emprego.

Sem pressa

No dia seguinte, nota assinada por José Carlos Freitas, da Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo da Capital, lembrou que um relatório do Corpo de Bombeiros aponta problemas de segurança na Arena e faz uma série de exigências para a continuação das obras, mas o Ministério Público deixou a solução para esta semana: "A promotoria, em caso de descumprimento ou cumprimento parcial dessas exigências, não descarta a adoção de medidas visando à interdição parcial da arena, mesmo durante a realização da Copa do Mundo 2014. Nessa hipótese, eventuais prejuízos causados aos adquirentes de ingressos, que poderão ser privados do direito de assistir aos respectivos jogos, deverão ser objeto de ações judiciais em face dos organizadores do evento e dos responsáveis pela construção da arena".

Fábio Hamilton da Cruz foi o terceiro operário a morrer em serviço no Itaquerão.

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Roberto Benevides

Roberto Benevides, jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.