Não estão previstos enormes riscos para os agentes econômicos no curto prazo.

O momento brasileiro é desafiador, mas é preciso que reconheçamos, desde logo, que estamos a eliminar muitos pensamentos e percepções que foram superados pela completa ausência de suporte lógico. Destaca-se nesse processo de superação intelectiva o fato de que a distinção entre conservadores e progressistas, direita e esquerda, ou até mesmo, governo e oposição, é mera concepção de linguagem, sem maiores bases em termos políticos. Os efeitos desse situação estrutural sobre a política e a economia são muito grandes e afetam a nossa vida diretamente.

As administrações de Lula, Dilma e, agora Temer, consolidaram a ideia de que a política no Brasil tem como alma mater a corrupção, o benefício do político em detrimento da Política (com "P" maiúsculo), o nepotismo, o favorecimento e assim por diante. Numa linguagem vulgar, partidos e políticos foram, lamentavelmente, lançados no mesmo saco de farinha. Aqui não há juízo, apenas observação.

Lula, ao se apossar da agenda conservadora em seu primeiro mandato, apenas fazia a grande ponte que o levaria ao amplo processo de alianças, cujo objetivo final não se sabe à perfeição qual era, mas certamente incluía a sua permanência no poder via um largo arco de corrupção, entendida em seu sentido estrito e lato. Lembremo-nos, a pálida figura de Antonio Palocci, comemorado com guardião da racionalidade cartesiana do petismo lulante pelas elites brasileiras.

Já Dilma, essa parece ter sido vítima de uma estranha combinação de ambição desmedida frente à sua incapacidade política e de elaboração da política econômica. Aceitou o jogo montado pelo seu antecessor em prol do seu bem maior: ser eleita e reeleita. As contradições e inconsistências que emergiram da economia e, subsequentemente, na política, a dragaram para as profundezas históricas do Brasil. A essa altura dos acontecimentos Dilma combina absoluta irrelevância na historiografia com um papel aparentemente menos ativo, mesmo que condescendente, com o jogo corrupto da política.

Observadas as conversas subterrâneas de Michel Temer no Jaburu, com um empresário vistosamente tratado com dinheiros públicos e aceitação privada, foram abertas todas as cortinas para mostrar maquiavelicamente as tripas do poder no Brasil. Não há escrúpulos, não há sequer ideias minimente republicanas. Já tínhamos escrito nesse espaço que a agenda tecnoempresariocrática de Temer não era resultado de convicções próprias, mas daquilo que era possível para aglutinar o poder econômico em torno de si e, dessa forma, prover racionalidade à gestão governamental que ele preside, pelo menos até agora. Aqui vale relembrar a medrosa figura de Michel Temer na mesa principal da Câmara dos Deputados conspirando outrora contra as reformas providenciadas pelo então presidente Fernando Henrique. Agora, vem a sua oportunista conversão aos anseios liberais de certa cota das elites econômicas. Não há raiz nessa árvore, diga-se.

O distinto público e mesmo os mais impávidos empresários e financistas sabem que Michel Temer e seu governo não tem credibilidade para enfrentar hercúleos desafios. Pode, isso sim, aprovar medidas e reformas que são boas ao Brasil, tais quais a da previdência social e do mercado laboral. Como dissemos, essa é a agenda que escolheu porquanto é a última que lhe resta. Todavia, não superestimemos o tamanho do dinossauro.

As reformas da previdência e do mercado de trabalho são muito relevantes ao país. Todavia, não devem os agentes econômicos acreditar que estas serão suficientes para reacender a chama do desenvolvimento. Esse é um processo endógeno, formado na sociedade e que requer, além de condições básicas do ponto de vista econômico, consenso político e social que possa dirigir ações públicas e privadas. Legitimidade política, nesse caso, não pode ser apenas formal. É preciso materialidade, verdade, expressão real por parte das lideranças políticas, especialmente do excelentíssimo Presidente da República. Michel Temer não é esse animal político. É apenas o protagonista da Velha República calcada no que há de pior em termos de fundamentos. Da corrupção à sua turma palaciana mais próxima, Temer pode até carregar o seu governo ao final. Essa última palavra tem dois significados: o temporal, ou seja, até o último dia de seu mandato ou, o material, caso venha a sucumbir de outra forma institucional, inclusa a renúncia.

A despeito de tudo isso, creio que o desenrolar da atividade econômica, do desempenho das contas públicas, política monetária e estabilidade de preços, está dado. Não estão previstos enormes riscos para os agentes econômicos no curto prazo. Isso se deve sobretudo ao fato de a posição financeira externa do país ser sólida. Reservas externas elevadas e a atual fluidez de recursos para o setor privado são sinais de que o Brasil se defronta com relevante desafio no médio prazo (daqui a um ano), mas não no curto prazo. Já no longo prazo, a sociedade brasileira está para decidir se aceitará a própria condição de pária perante a classe política que a nós domina. A dissociação entre poder e política no Brasil é gravíssima. O distinto público perdeu a confiança no sistema representativo. A repercussão disso não está extensivamente vislumbrada e efetivamente entronizada pelos agentes. Todavia, não tenhamos ilusões: a política como ela está é o maior e mais significativo empecilho para o desenvolvimento. Aqui não cabe eufemismo. A coisa pode piorar muito no longo prazo.

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Francisco Petros

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).