O Brasil está a correr riscos que talvez jamais tenha incorrido

Em pleno low season no Hemisfério Norte o cenário está mais quente que a temperatura acima do usual nesse verão recheado de riscos e fatos. A invasão do aeroporto de Hong Kong pela população daquela ilha, amante da liberdade, é sinal vital do tamanho das contradições que vigem na crosta terrestre. O Império Chinês, tal qual qualquer outro, não é afeito às contradições. De outro lado, a guerra comercial entre a América liderada por um populista em busca de aventura eleitoral e uma China disposta a arregaçar as mangas cambiais, atrai riscos de sobra para os oscilantes mercados financeiros e de capital ao redor do mundo. A política monetária, essa sim, está cada vez mais se tornando apenas um caderno de anotações das variáveis: todos avaliam os riscos nos informes dos bancos centrais, mas nem todos acreditam que as autoridades monetárias sejam capazes ou estejam autorizadas a retomar as ações necessárias para injetar ânimo nas economias centrais. A interdependência capitalista é um fato, mas o jogo político não-cooperativo é outro.

Esses tempos estranhos estão a motivar enorme especulação nas bolsas de valores e nos mercados. Nas duas últimas semanas, a denominada "volatilidade implícita" dos segmentos do mercado norte-americano (SP500 e Nasdaq) tem variado bastante, sendo que na semana passada dobrou em relação a semana anterior. Isso quer dizer que o risco aumentou. Vale dizer que nessa época de férias no Norte a liquidez é menor e o noticiário costuma ser ameno ao contrário do clima que é bem afeito às temperaturas tropicais. Ocorre que a verborragia de Trump em relação à guerra comercial com as evidências de que as perspectivas de ativação da economia estão a piorar os investidores estão acessando seus celulares para operar nos mercados a partir das praias e casas de campo. Nem o ócio é mais respeitado.

Para o Brasil esse cenário externo chega em má hora. O país não consegue sair do atoleiro no qual está aturdido desde meados de 2013. O baixo crescimento combinado com a ausência de um processo político construtivo e voltado para o desenvolvimento econômico está arranhando os traços de "país emergente". De fato, vê-se uma sociedade incapaz de organizar suas forças internas de forma relativamente produtiva e justa numa visão capitalista. Afora isso, a ausência de perspectiva para a superação, de um lado, da extrema pobreza, ignorância e falta de integração às cadeias tecnológicas da população, e, de outro, da necessidade, de uma ampla integração com as cadeias de produção mundiais, faz com que o desenvolvimento do país esteja cada vez mais distante de seus pares emergentes. O Brasil deixou de ser prioridade de investimento em função da recessão instalada, sem perspectiva de ser superada no curto e médio prazo e em função desse gap funcional-estrutural. É o dualismo do qual precisamos sair.

O Brasil não está isolado no içamento eleitoral do populismo, mas temos de reconhecer que em países onde o eleitorado é iletrado e funcionalmente sem educação, a liderança populista que propaga a confusão informacional e propaga a mentira organizada, a chance de se estabelecer politicamente é bem maior. Pior ainda quando a elite também está a defender interesses estreitos com feições mais interesseiras e oligárquicas, como no caso da Rússia: a chance de prosperar o populismo é muito maior.

Não há dados concretos e objetivos para que possamos examinar o que está a ocorrer no âmbito microeconômico, mas é possível que o dualismo brasileiro (profunda desigualdade social e falta de integração nas cadeias produtivas mundiais) esteja mudando definitivamente a racionalidade empresarial. A operação das empresas talvez ocorra sob o signo do baixíssimo investimento e da alocação cada vez mais racionalizada da mão-de-obra, com a contenção dos salários reais. A desmontagem das estruturas sindicais, por mais obsoletas que fossem (e, de fato, eram!), ainda se constituíam em barreiras para esse processo estrutural.

Esse quadro que combina uma (i) onda de aumento de riscos conjunturais sensíveis, (ii) com incremento da volatilidade do mercado no âmbito internacional nesse verão no Hemisfério Norte, no exato momento em que (iii) os bancos centrais acendem suas luzes amarelas, com alertas de que a atividade econômica poderá sofrer significativo slowdown, (iv) com a presença inquietante de lideranças populistas irresponsáveis nas rédeas de economias importantes, o Brasil está a correr riscos que talvez jamais tenha incorrido. As variáveis de risco estruturais de nosso país estão presentes e vigorosamente mostram-nos que tanto políticas populistas quanto aquelas que aguçam às lutas de classes não produzirão resultados para a superação desse difícil momento do país.

Estamos precisando pensar em saídas muito além do pobre debate momentâneo. Reformar é muito importante. Ter um projeto de país é mais importante ainda.

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Francisco Petros

Francisco Petros é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).