Dúvida do leitor

O leitor Conrado de Paulo envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Caro professor José Maria, já que tanto para o Aurélio quanto para o Houaiss 'folha' significa 'cada uma das unidades materiais (ou blocos) de que se compõe um livro, revista, jornal etc., cujas duas faces têm o nome de página', então está certo dizer 'às folhas tantas', quando folha compreende duas páginas, com números diferentes?"
 

1) Um leitor indaga, em síntese, qual a diferença entre folha e página. E complementa, partindo da premissa de que a folha, quando considerada na frente e no verso, é um conjunto constituído por duas páginas, se posso usar a expressão folha para significar cada conjunto de duas páginas, estas com numeração duplicada daquelas. Assim, página 40 ou folha 20-verso.

2) Ora, folha vem do substantivo neutro latino folium (possivelmente tomado por equívoco do plural folia como se fosse um feminino singular) e significa o órgão geralmente laminar e verde de algumas plantas. Por analogia, passou a significar qualquer lâmina de pouca espessura, como folha de metal, folha-de-flandres ou folha de papel.

3)página vem do feminino latino pagina, que significa a parte interna de um papiro, com uma coluna apenas escrita.

4) Com essas explicações como premissas, passa-se a responder à indagação do leitor: a) é certo que, num livro, num caderno ou num processo, uma folha é um conjunto de duas páginas, que representam a frente e o verso daquela; b) convencionou-se, todavia, dizer folha em alguns casos (como num processo), e página em outros (como num livro ou caderno); c) num livro, as páginas recebem numeração crescente, de modo que, na frente, se tem uma página de número ímpar, enquanto, no verso, uma de número par; d) já com os processos, as folhas têm numeração crescente em sua frente, mas o seu verso recebe o mesmo número da frente, apenas com a especificação de que se trata do verso (assim, fls. 3 e fls. 3-verso, ou, de modo abreviado, fls. 3-v.).

5) Parece oportuno acrescentar algumas observações: a) haveria de contrariar na íntegra o uso que normalmente se faz do idioma empregar página para discriminar os elementos de um processo judicial ou folha para especificar os mesmos elementos de um livro ou caderno; b) importa observar, entretanto, que, fora de uma estrita especificação e numeração, emprega-se folha para fazer referência a um livro, sobretudo quando não está em questão a respectiva numeração ("Ele procurou ler aquele livro, mas não passou das primeiras três folhas").

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José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.