Dúvida do leitor

O leitor Alisson de Mattos envia a seguinte dúvida ao Gramatigalhas:

"Professor José Maria, sou policial e gostaria de saber se uma das frases mais utilizadas pela polícia está correta: 'O meliante evadiu-se'. Então, essa é a dúvida: seria 'se evadiu', 'evadiu-se' ou simplesmente 'evadiu'? Ajude-me a tirar essa dúvida. Aguardo resposta. Obrigado."

1) Um leitor, dizendo-se policial, diz ter dúvidas sobre uma das frases mais usadas pela polícia: O meliante evadiu-se. E indaga qual das formas é correta: a) "O meliante evadiu"; b) "O meliante evadiu-se"; c) "O meliante se evadiu"?

2) Uma atenta leitura dos exemplos trazidos pelo leitor mostra que ele, em realidade, tem duas dúvidas: a) se o verbo evadir é pronominal (evadir-se) ou não (evadir); b) em sendo pronominal, se o pronome pessoal oblíquo átono vem antes do verbo ou depois do verbo.

3) Quanto à primeira dúvida, Francisco Fernandes, com base em exemplos de abalizados escritores, confere a esse verbo, no sentido de escapar ou fugir às ocultas, apenas a construção como pronominal, isto é, acompanhado do pronome se . Celso Pedro Luft segue exatamente em mesma esteira. Confiram-se, assim: a) "O meliante evadiu-se" (correto); b) "O meliante evadiu" (errado). Não há necessidade de prolongar as discussões quanto a isso.

4) Quanto à segunda dúvida, referente à colocação do pronome, importa observar, de início, que, em tese, um pronome pessoal oblíquo átono pode-se colocar em três posições na frase: a) antes do verbo, ou seja, em próclise ("Não me amole!"); b) no meio do verbo, ou seja, em mesóclise ("Dir-se-á que não trabalhamos"); c) após o verbo, ou seja, em ênclise ("Deram-me notícia falsa").

5) E, ainda antes de discutir o mérito da questão, em raciocínio que sempre deve ser repetido em tais circunstâncias, observam-se os seguintes aspectos no exemplo dado: a) o verbo é evadir-se; b) o pronome, cuja colocação está sendo discutida, é o se; c) o verbo está num tempo simples (ou seja, não é composto, nem é locução verbal, o que acarretaria observações um pouco diversas); (iv) o verbo não está no futuro do presente, nem no futuro do pretérito (de modo que se descarta totalmente a possibilidade de ocorrência de mesóclise), e, assim, restam, na prática, apenas as possibilidades de próclise (pronome antes do verbo) e de ênclise (pronome após o verbo).

6) Com essas premissas, deve-se atentar aos seguintes aspectos: a) o lugar natural do pronome, nesses casos, é em ênclise; b) esse pronome apenas é atraído, em próclise obrigatória, quando há, logo antes do verbo, alguma das chamadas palavras atrativas; c) as palavras atrativas são (i) as negativas, (ii) os advérbios, (iii) os pronomes relativos, (iv) os pronomes indefinidos e (v) as conjunções subordinativas; d) no caso sob análise, meliante é um substantivo e não se encaixa em nenhuma dessas categorias; e) se é assim, conclui-se que não há palavra atrativa alguma; f) então não há motivo para a próclise obrigatória, e a colocação natural do pronome é em ênclise.

7) Tecem-se algumas ponderações adicionais: a) o sujeito é meliante, e o verbo é evadiu-se; b) não há palavra atrativa logo antes do verbo; c) o exemplo está na ordem direta (sujeito + verbo + complemento); d) quando se tem essa duplicidade de condições – exemplo na ordem direta e ausência de palavra atrativa antes do verbo – , então, além da ênclise, também se faculta o uso do pronome em próclise.

8) Com essas considerações, responde-se ao leitor de modo direto e prático: a) quanto à primeira dúvida, o verbo evadir-se, no sentido de escapar ou fugir às ocultas, é pronominal, de modo que deve vir obrigatoriamente acompanhado pelo pronome; b) desse modo, é correto o primeiro exemplo ("O meliante evadiu-se"), mas errado o segundo ("O meliante evadiu"); c) quanto ao segundo exemplo, por não haver palavra atrativa antes do verbo, o lugar natural do pronome é após o verbo, em ênclise ("O meliante evadiu-se"); d) se houvesse palavra atrativa antes do verbo, seria obrigatória a próclise ("O meliante não se evadiu"); e) em mesma esteira, porque não há palavra atrativa antes do verbo e porque o exemplo está na ordem direta, também é correta a colocação do pronome antes do verbo, em próclise ("O meliante se evadiu").

9) Por facilidade, confiram-se os exemplos seguintes, com a indicação de seu acerto ou erronia entre parênteses: a) "O meliante evadiu" (errado); b) "O meliante se evadiu" (correto); c) "O meliante evadiu-se" (correto); f) "O meliante não se evadiu" (correto); e) "O meliante não evadiu-se" (errado).

10) Vale acrescer que, em casos como o trazido pelo leitor, de emprego facultativo da ênclise ou da próclise, a ênclise é mais usada em Portugal; no Brasil, a preferência é pela próclise.

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José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.