Dúvida do leitor

O leitor Enio Rogério Albino Ramos envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Prezado José: Por favor, dá-me uma migalha do teu extenso conhecimento da vilipendiada (diariamente) língua de Camões: Por que estão com essa mania (em jornais, TV) de engolir, por exemplo, o 'se', invertendo a ação de certos verbos? Há pouco tempo, no Globo Esporte, 'assassinaram' nossa belíssima língua portuguesa: 'Fulano concentrou...'/'O jogador tal atirou no chão para cavar um pênalti (um anglicismo suportável)'. Quando é que vamos criar vergonha - aceitando a evolução, é claro! - e vamos deixar Camões em paz no seu sono eterno?"

1) Um leitor observa que, nos jornais e na televisão, tem sido comum o esquecimento do se em determinadas expressões: a) "O jogador concentrou...", em vez de "O jogador se concentrou..."; b) "O jogador atirou no chão para cavar um pênalti", em vez de "O jogador atirou-se no chão para cavar um pênalti". E pede que se teça algum comentário a esse respeito.

2) Ora, de um exemplo como "O jogador concentrou seus esforços...", podem-se extrair as seguintes conclusões: a) o jogador é o sujeito; b) concentrou é o verbo; c) seus esforços é o objeto direto.

3) Imagine-se, porém, que o jogador tenha ido para a concentração, junto com os demais atletas, um ou dois dias antes de um jogo. Nesse caso, ele levou a si próprio para a concentração. Então se haverá de dizer que "O jogador concentrou-se no centro de treinamentos".

4) Veja-se um segundo exemplo: "O jogador atirou a bola ao chão". Dele, de igual modo, podem-se fazer as seguintes ilações: a) o jogador é o sujeito; b) atirou é o verbo; c) a bola é o objeto direto; d) ao chão é o adjunto adverbial de lugar.

5) E também aqui se imagine que ele tenha lançado a si próprio ao chão. Nesse caso, então, se haverá de dizer que "O jogador atirou-se ao chão".

6) Esse se não pode ser esquecido nem dispensado em nenhum dos dois casos, nem mesmo com a alegação de amor à brevidade, pois não é um penduricalho que um usuário de gosto barroco tenha posto na frase, mas é um termo essencial na estrutura sintática, que desempenha em ambos os exemplos a função de objeto direto.

7) Ante essas ponderações confrontadas com os exemplos trazidos para apreciação, só resta concordar com o leitor e lembrar que já houve dias melhores para o vernáculo nos meios de comunicação.



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José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.