Ao diversificado universo das atividades estudantis, desde as desenvolvidas em sala de aula, talvez essas as de menor intensidade, passando por seus folguedos e peraltices, passeios, serenatas, saraus, escritos em jornais, poesias, clubes literários, proselitismo político, discursos, até a intensa boemia, não poderia faltar a música.

Ela já surgiu no próprio dia da instalação do Curso de Direito, em 1º de março de 1828. Dia de festa, de gala, de discursos infindáveis, muito formalismo e de farta mesa de doces. Afinal, a efeméride estava a justificar toda a pompa e circunstância que a sociedade da época sabia produzir.

O discurso principal ficou a cargo do primeiro professor da Faculdade, José Maria de Avelar Brotero. Registros da época, inclusive do jornal Farol Paulistano, talvez o único de São Paulo, mostraram que a fala procurou retratar a alegria e o orgulho de toda a população paulistana, pelo histórico acontecimento. São Paulo estava a partir dessa data sediando o primeiro curso superior do Brasil, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Lembre-se que de acordo com a lei de 11 de agosto de 1827, além de São Paulo a cidade pernambucana de Olinda iria abrigar como efetivamente o fez, um curso de Direito para os jovens das regiões norte e nordeste. No entanto, a sua primeira aula se deu em maio de 1828, portanto após a inauguração da Faculdade de São Francisco.

Nesse dia, não constam erros de pronúncia, nem trocas de palavras por parte de Brotero, fatos que passariam a ser corriqueiros compondo um folclore que acompanhou o professor por toda a sua vida, as famosas "broteradas", palavras pronunciadas em conjunto: "limenta com pimão", ao invés de pimenta com limão; "vidrada quebraça", no lugar de vidraça quebrada, "cidadeira brasilão" em substituição a cidadão brasileiro.

As trapalhadas igualmente estavam presentes nas frases completas. Assim, ficou célebre o dito campestre "o gado a saltar de galho e galho, os passarinhos a pastarem pelo campo".

O Imperador Pedro II também pode testemunhar as confusões verbais do professor Brotero. Quando em visita à Faculdade, Brotero apresentou ao Imperador o Cônego Fidelis, professor de Retórica: "Apresento Vossa Majestade o Cônego Retórica, professor de Fidelis".

Uma outra característica de Brotero era o seu temperamento irascível e o seu mau gênio. O seu alvo principal era o Diretor da Faculdade Coronel José Arouche de Toledo Rendon. No entanto, atingia outros professores, alunos e até funcionários da escola.

Um bedel que terminado o seu expediente ia ler jornais na biblioteca, não conseguia o seu intento, pois quando Brotero o via, dava-lhe algo para fazer, não permitindo que permanecesse parado, lendo. Aliás, a alcunha desse servente era Zé Quieto. Tratava-se de um negro.

Em relação a outro funcionário, Chico Guaiaca, sabendo que tocava em uma banda, determinou que optasse, ou a Faculdade ou as exibições musicais. Não se sabe se a opção foi feita.

Além de Zé Quieto e de Chico Guaiaca um terceiro servente caiu em desgraça. Era o Mendonça, que no entanto, não permaneceu silente diante das provocações. Após algumas implicâncias, enfrentou o professor Brotero dizendo-lhe "não me persiga, porque eu também sou maluco".

Voltando à instalação do curso jurídico em São Paulo, nessa data houve a primeira manifestação musical no Largo de São Francisco. Foi executado o denominado "Hino da Inauguração". Segundo algumas fontes o único registro existente a respeito foi feito pelo jornal "Farol Paulistano", que, no entanto, não informou o seu autor. Esse hino parece ter tido vida efêmera, pois foi substituído pelo "Hino Acadêmico", com letra de Bittencourt Sampaio e música de Carlos Gomes. Inúmeras outras composições, durante a história da Faculdade, cantaram e louvaram as Arcadas e os seus estudantes, inclusive as famosas trovas acadêmicas, relegando ao esquecimento o Hino da Inauguração.

A respeito da autoria desse primeiro hino há uma especulação em torno do nome de André da Silva Gomes, um antigo professor de música que residia em São Paulo. Alguns dizem poder ter sido ele o responsável pela peça ou, mesmo, algum de seus alunos.

O violão, a viola e a flauta eram os instrumentos mais utilizados pelos estudantes. No entanto, houve um, hoje pouco conhecido com esse nome, o oficlide ou oficleide, que não era executado por aluno, mas sim pelo contínuo da Faculdade de alcunha Chico Guaiaca, o mesmo que foi alvo de Brotero, que o tocava em uma banda de música.

Os estudantes portadores de dom musical, quando revelado, recebiam algumas vantagens e privilégios dos professores simpáticos à música. Consta que um sisudo mestre era generoso e benevolente com um aluno, aliás péssimo aluno, mas um exímio tocador de flauta. Por tal razão, o professor dava-lhe altas notas não consentâneas com a qualidade de suas provas.

Alguns mestres se insurgiram e negaram a aprovação ao flautista. O seu protetor, no entanto, disse que agiria da mesma forma em relação aos alunos protegidos pelos seus colegas de congregação, reprovando-os. Sem oposição, o mau aluno pode ser matriculado no ano posterior.

Houve um momento no início da Faculdade, que os professores resolveram agir com maior rigor na avaliação dos alunos. Consta de um ofício às autoridades do Império, que os professores seriam mais rigorosos e não aprovariam os "vadios, que se ocupavam em fazer travessuras e desordens".

Vê-se que os seresteiros, boêmios, os que perambulavam pela cidade e seus arredores, os dedicados às letras, à música e a outras atividades extracurriculares teriam dificuldades em obter êxito nos exames.

No entanto, como em regra os travessos, peraltas e desordeiros possuíam uma inteligência ágil e vivaz, o pouco que estudavam era suficiente para a aprovação. Assim era e assim é.

Dentro desse sistema de maior rigidez e disciplina, nem sequer apresentações artísticas de estudantes eram permitidas. Foram, inclusive, proibidas exibições no recém criado "Teatro Acadêmico" e nos outros poucos palcos existentes em São Paulo.

Os estudantes, no entanto, não aceitaram as imposições superiores e passaram a atuar em locais aonde o povo pudesse ir. O Largo de São Gonçalo, hoje Praça João Mendes, tornou-se palco de apresentações teatrais e musicais especialmente nas tardes de domingo.

Os pendores artísticos musicais dos estudantes de Direito foram manifestados, por vezes, em situações as mais inusitadas. Em razão de um atrito com a polícia dentro do Teatro do Pátio do Colégio, na presença do então Presidente da Província Coronel Joaquim José de Luiz e Souza, vários estudantes foram presos. Não se sabe exatamente por quantos dias. Segundo uns registros por vinte quatro horas, de acordo com outros durante onze dias. No entanto, durante o tempo que estiveram encarcerados a cantoria não cessou. Entoavam músicas conhecidas ou improvisavam letras, que ecoavam por toda a redondeza.

Em outra oportunidade, um estudante que fora preso por agredir o professor Brotero, ficou durante todo o período de encarceramento na cadeia pública localizada no Largo de São Gonçalo, a cantar e a tocar violão.

Nos primórdios da Faculdade alguns estudantes se destacaram, em razão de seus dotes musicais.

O magistral jurista Teixeira de Freitas, quando estudante do Largo de São Francisco, deliciava os seus colegas de República com o seu violão, que tocava deitado em uma rede. O notável baiano tinha preferência pela música "A vida do Estudante", composta por seu colega Antônio Queiroga.

Teixeira de Freitas veio transferido da Faculdade de Olinda, mas não se formou em São Paulo. Colou grau na mesma Olinda, para onde retornou, quando estava no quarto ano.

O autor de "O Guarani" e de outras obras que o elevaram à condição de um dos maiores escritores do Brasil, José de Alencar, formado em 1850, embora não fosse músico, além de haver inspirado Carlos Gomes, na composição da ópera do mesmo nome, escreveu a letra de outra ópera, "Noite de São João" . A música foi do também famoso maestro Elias Lobo.

É interessante notar que os dois grandes músicos, Carlos Gomes e Elias Lobo, embora não tivessem estudo Direito, tiveram as suas carreiras ligadas aos estudantes de Direito do Largo de São Francisco.

outras edições
Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Antônio Claudio Mariz de Oliveira é advogado.