Abro a coluna com uma deliciosa historinha contada ontem a este analista político pelo governador Geraldo Alckmin, por ocasião da 25ª edição do Congresso Brasileiro do Aço, que termina hoje no WTC. Alckmin era candidato à prefeitura de Pindamonhangaba, sua cidade. Moço, 24 anos, bem disposto, chegando ao final do curso de Medicina, o candidato gastou muita sola de sapato para distribuir os seus santinhos. Já na reta final da campanha, chegou numa casinha de família pobre, identificou-se, enfrentou a zoeira de um papagaio falador e de galinhas no corredor e foi bater na cozinha, onde uma senhora, rodeada de filhos, aprontava o almoço. Distribuiu seu santinho e gastou muita lábia para convencer a eleitora a votar nele. Agradeceu e, já na porta, a senhora fez o tradicional pedido :

- Doutor, e o dinheirinho para as passagens ?

O candidato, com um sorriso aberto, pediu para a senhora chegar à calçada e apontou para a seção eleitoral, que ficava logo ali adiante, a um quarteirão da casa.

- Dona fulana, a senhora vai votar ali, bem pertinho, naquele grupo escolar.

O arremate pegou Geraldo Alckmin de surpresa :

- Mas, doutor, nós votemo em Itajubá.

Geraldo elegeu-se prefeito de Pindamonhangaba, em 1976, por uma diferença de 67 votos. Poderia ter mais uns votinhos se Itajubá fosse um sítio de Pinda e não a cidade mineira, que faz divisa com SP, onde morreu o ex-presidente da República Wenceslau Braz, aos 98 anos.

Ganha Dilma, ganha Aécio

Os cenários de vitória e derrota começam a ganhar corpo. A Consultoria Rosenberg Associados faz a previsão : "Só muita torcida contra pode impedir uma pessoa racional de perceber como Dilma é favorita". E bate forte : "Visto de hoje, o cenário mais provável é a continuidade da mediocridade, do descompromisso com a lógica, do mau humor prepotente do poste que se transformou em porrete contra o senso comum". Que linguagem desbocada para uma empresa que faz projeções políticas, hein ? E outra Consultoria, a Macrométrica, usando um método de análise organizado por Nate Silver, editor chefe do site "FiveThirtyEight", chega a outra conclusão. Usando os dados da última pesquisa do Ibope, a Consultoria diz que Aécio Neves conta com uma vantagem de 2 a 3,6 pontos percentuais sobre a presidente Dilma. E agora ?

Agora é conferir a economia

Este consultor não arreda pé de suas hipóteses. Se a inflação se mantiver sob controle, não afetando o bolso dos consumidores/eleitores, a geladeira continuará cheia, o coração agradecerá e a cabeça acabará decidindo a favor de quem proporciona o bolso cheio. A recíproca é verdadeira. Não acredito que a fumaça, mesmo forte, que sai dos fornos da Petrobras - CPIs, escândalos em série, malas cheias de dinheiro - seja capaz de afetar o quadro eleitoral. Claro, reforça os pontos de vista do eleitor que já tem decisão de votar contra a presidente Dilma. Mas não bate nas margens sociais, afeitas à equação BO+BA+CO+CA (bolso, barriga, coração, cabeça).

E a economia ?

Os indicadores mostram que a situação é de perigo. O varejo se queixa de grande retração. Mais de 60 mil trabalhadores do comércio varejista foram demitidos nos últimos meses. O setor do aço registra uma retração de mais de 30%. O setor automobilístico, apesar dos incentivos Federais e estaduais, também apresenta forte queda de vendas. A construção civil é um poço de queixas. E assim por diante. Mas o que mais toca de perto o eleitor das margens é a feirinha, o armazém da esquina, as gôndolas de alimentos nos supermercados das periferias. Aumentou o tomate, a cenoura, a alface ? Pumba, a cesta básica acusa o aumento. E lá vem xingamento.

Mercado em ebulição

A siderurgia brasileira está passando maus momentos. De janeiro a junho deste ano a produção mundial de aço bruto cresceu 2,5% na comparação com igual período do ano passado. Até o final de 2014 a previsão é de que 600 milhões de toneladas excedam a demanda, ainda lenta e distante dos níveis pré-crise mundial. Com siderúrgicas chinesas e europeias a todo vapor, o mercado brasileiro enfrenta dificuldades. Exportar deixa de ser uma opção.

Sem solução no curto prazo

Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, diz que a siderurgia brasileira está sendo corroída. "O mercado interno não cresce como esperado e ainda é bombardeado por importações". Não há solução para o aço excedente e, especialmente no Brasil, a alta carga tributária e custos elevados de energia elétrica, gás natural, mão de obra e câmbio desfavorável deterioram ainda mais a competitividade.

Padilha subirá ?

Uma questão recorrente em SP : por que Alexandre Padilha, o candidato do PT, não sobe nas pesquisas ? Porque a campanha de TV e rádio só vai começar no próximo dia 19. É o que dizem os petistas. O argumento é apenas razoável. O fato é que os setores médios paulistas expandem sua contrariedade em relação ao PT. Por isso, a rejeição à presidente Dilma ultrapassa os 35%. Esse é um dado da questão. Outro argumento é o de que as margens ainda não entraram no clima de campanha. Ou seja, mais adiante, empurrado por Lula, Padilha subirá, não a ponto de alcançar o nível histórico do PT, mas, ao menos, uns 20%. É a hipótese defendida por este consultor.

Alckmin satisfeito

Ao ver este consultor se aproximar, o governador Geraldo Alckmin brada alto a palavra-chave que usa em todos os nossos encontros : Po-ran-du-bas. O papo, muito agradável, reunia, ao lado do governador, o presidente do Instituto Aço Brasil (IABr), Benjamim Mário Baptista Filho ; o megaempresário Jorge Gerdau ; o ex-presidente da FIESP, Carlos Eduardo Moreira Ferreira, entre outros. Alckmin, feliz com os seus 54% de intenção de votos, contou causos engraçados da sua vida política, como o que abre esta coluna.

Aécio no JN - 1

O senador Aécio Neves (PSDB/MG), primeiro presidenciável entrevistado pelo Jornal Nacional da Rede Globo, respondeu com segurança às perguntas de William Bonner e Patrícia Poeta, mesmo as mais delicadas, como a construção do aeroporto em terras que pertenciam à sua família em Cláudio, interior de Minas. Mas deixou no ar o futuro da economia. Sobre medidas impopulares, como corte de gastos e realinhamento de preços de combustíveis e de energia, garantiu apenas que tomará "medidas necessárias para retomar o crescimento". Quais ? Não detalhou. A menos que isto queira dizer um "tarifaço", palavra que não convém pronunciar antes de eleições.

Aécio no JN - 2

Uma boa frase do candidato sobre corrupção : "Condenado não será tratado como herói, como foi no caso do PT, porque deseduca". Para os programas sociais, prometeu manter todos, "transformando-os para melhor". Funciona como um antídoto para beneficiados do Bolsa Família. E encerrou com a promessa de "um novo ciclo de desenvolvimento, com ética e eficiência". No fim, mandou recados para eleitores dos rincões do país, especialmente para o Nordeste, em que tem menos votos. Saldo : poderia ter aproveitado melhor a exposição do Jornal Nacional, caso fosse mais direto sobre seu programa de governo, especialmente na economia. Mas o formato da entrevista não permite voos longos.

Campos subirá ?

Esta é outra recorrente indagação. Resposta : sem dúvida. Mas alcançará o percentual que Marina Silva, sua candidata a vice-presidente da República, obteve em 2010 ? Eis o dilema. Marina foi o elemento novo que agitou a galera, particularmente os segmentos jovens. Este consultor acredita que ele poderá se situar em um patamar entre 15% a 20% dos votos, ajudando a campanha a entrar no segundo turno. Para tanto, precisa empolgar as galeras jovens, a partir do empurrão de Marina. E aumentar sua cota de votos no Nordeste, onde ainda não se tornou o chamariz da estação. Nessa região, Dilma ganha de galope.

"Burrocracia" do bilhete único

Você sabia que houve alteração para retirar o primeiro bilhete único e ainda procedimentos para sua renovação ? Pois é, a SPTRANS exige que cada usuário faça seu cadastramento, bastando que conte com essa batelada : computador, disponibilidade de internet, e-mail próprio, impressora e noções medianas de como usar tudo isso. A rota da burocracia abrange cadastro, importação da foto para montagem do formulário impresso, envio ao órgão competente, um posto "próximo" da residência do usuário para recebimento do bilhete único. Imagine-se um trabalhador que jamais teve intimidade com computador e periféricos. O que vai acontecer ? As empresas, que antes dispunham de um setor para providenciar essa batelada, passaram a recusar candidatos que não possuam o bilhete único. Sabem que terão problemas à frente, ou seja, um colaborador que dificilmente terá condições de conseguir atender às normas da SPTRANS. O empecilho provocará embaraços ao próprio pagamento do Vale Transporte. A Classe C irá ao paraíso ? Desse jeito, irá, sim, mas ao inferno.

As pernas dos papéis

E por falar em "burrocracia", vejam esta historinha (real) dos papéis que andam entre as instantes dos prédios públicos. O cidadão chega à repartição e pede para ver seu processo. Ouve : "Ah, doutor, tem uma pilha enorme na frente do processo do senhor. Vai demorar um tempão até ser despachado. Papel, doutor, não tem pernas". Agastado, o interlocutor reage : "E quanto o senhor quer para pôr dois pés nesse papel"? Tiro e queda. O adjutório (cinquentinha) fez o papel correr rapidinho.

70 anos de história

A trajetória do Grupo Rodrimar, fundado em 1944, se confunde com o desenvolvimento do Porto de Santos - o maior da América Latina. Naquela época os irmãos Manoel Rodrigues e Nilo Rodrigues davam o primeiro passo rumo a uma história de sucesso na área de importação e exportação que completa 70 anos. A data será lembrada com uma grande festa na Sala São Paulo para convidados, no dia 21 de agosto. A Orquestra Filarmônica Bachiana, sob a regência do maestro João Carlos Martins, e a dupla Chitãozinho & Xororó serão as atrações da noite.

Lições de marketing

A) Pacote de macarrão

O calcanhar de Aquiles dos candidatos é evitar serem flagrados em dissonância. Isso ocorre geralmente quando um candidato tenta mudar de identidade. O eleitor percebe quando a pessoa torna-se artificial, um mero produto de marketing. E candidato não pode ser trabalhado como se trabalha um sabonete, um pacote de macarrão.

B) O segundo turno

Costuma-se dizer que o segundo turno é outra campanha. Não o é. Na verdade, trata-se da continuidade da primeira, observando-se essas características. O tempo de programa eleitoral será o mesmo, dando assim chances para uma comparação mais exaustiva e atenta entre perfis e programas. Os 10 minutos que caberão aos dois candidatos serão suficientes para se ter uma avaliação mais completa dos ideários. É bem verdade que a semântica, a mensagem oral, o plano das ideias, deverão ser cobertos pela estética da TV - na estratégia do marketing de embalar os perfis com celofane mais colorido. Portanto, o marketing atuará como ator importante para "vender" os candidatos.

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Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.