Abro a coluna com um pouco de filosofia e um pouco de riso.

"O homem é uma ponte e não um ponto de chegada ; cabe-lhe ser feliz de seu meio dia e crepúsculo como caminho para novas auroras." (Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra)

O coice

Sócrates caminhava tranquilo quando um atrevido descomedido deu-lhe um coice. Estranharam alguns a paciência do filósofo, que arguiu :

– Pois eu que lhe hei de fazer, depois de dado o coice ?

Responderam :

– Demandá-lo em juízo pela injúria.

Replicou :

– Se ele em dar coices confessa ser jumento, quereis que leve um jumento a juízo ?

(Dos ensinamentos do Padre Manuel Bernardes)

Conjunção rachativa

Historinha da Bahia de Todos os Santos. Grande de nome e pequeno de corpo. Magricela, esperto, inteligente, José Antônio Wagner Castro Alves Araújo de Abreu, sobrinho-neto de Castro Alves, herdou o DNA, o talento e a vadiagem existencial do poeta. Não gostava de estudar. No esporte, era bom em tudo. Colega de Sebastião Nery, no primeiro ano do seminário menor, na Bahia, em 1942, na aula de português, o padre Correia lhe perguntou o que era "mas".

– É uma conjunção.

– Certo, mas que conjunção ?

Zé Antônio olhou para um lado, para o outro e respondeu :

– Conjunção rachativa, professor.

– Não existe isso, Zé Antônio.

– Existe, professor. Quando a gente quer falar mal de alguém, sempre diz assim : – Fulano até que é um bom sujeito, mas... E aí racha com ele.

Reforma política

Por onde começar a reforma política ? Pelo capítulo mais complicado : a modelagem do voto. Eis algumas propostas na mesa do debate : 1. Distritão ; 2. Distritão misto ; 3. Distrital puro ; 4. Distrital misto ; 5. Proporcional misto ; 6. Proporcional misto flexível ; 7. Proporcional misto em dois turnos ; 8. Distrital Proporcional ; 9. Lista fechada. Tem pauta para grandes debates. Mas haverá paciência para se chegar a um mínimo de consenso ?

Ajuste fiscal

O pacote de ajuste fiscal, embrulhado pelo ministro Joaquim Levy, precisa chegar a um ponto de equilíbrio. Vai ser difícil, pois o empresariado mostrará que a desoneração da folha deu resultados e garantiu maior competitividade das empresas. O governo, por sua vez, reconhece ter cometido um grande equívoco com aquela política. Todos acham importante um programa de ajuste fiscal para que o país resgate a confiança dos investidores e a credibilidade junto aos organismos internacionais. O problema é que ninguém quer ceder. E não se faz omelete sem quebrar ovos.

Falta de líderes

A crise do atual ciclo escancara a falta de grandes líderes. Basta ver o repúdio que as massas nas ruas exibem aos políticos que sobem nos carros de som usados pelos movimentos sociais. Os líderes partidários agem de maneira muito atrelada aos interesses momentâneos de suas siglas, deixando de lado interesses nacionais. É um fato : as massas estão sem líderes e os líderes que temos não conseguem mobilizar as massas.

Destaques

Cito alguns nomes que começam a se destacar no Parlamento por sua capacidade de formulação e expressão : Bruno Araújo (PSDB), líder das oposições na Câmara dos Deputados. O pernambucano faz boa articulação, solta o verbo com contundência, é corajoso e é uma das boas revelações da atual safra parlamentar ; o mineiro Julio Delgado (PSB), que encabeça um movimento de independência dos deputados ; o carioca Chico Alencar (PSOL), que sabe ser contundente usando a verve e bom humor ; o senador goiano Ronaldo Caiado (DEM), que atira bem como opositor e tem visão abrangente das questões nacionais ; o senador paraibano (PSDB), Cássio Cunha Lima, tem voz forte ; o senador José Serra (PSDB), com seu alto conhecimento de economia. A lista tem bem mais nomes. Deixarei para outras colunas.

O momento

O aparente ar de tranquilidade não condiz com o fogo que consome os ânimos. As manifestações vão continuar sob bandeiras mais pontuais. Grupos de 50, 100, 200 pessoas se multiplicam nas grandes e médias cidades, apresentando demandas, fazendo críticas e exigindo posturas proativas dos governantes. Até o prefeito Fernando Haddad foi surpreendido por um grupo de pessoas que entraram em sua sala de aula na USP. Para onde convergirão as pressões e o clamor das ruas ?

A hora do Congresso

O Congresso será o espaço que abrigará o discurso social. Os parlamentares, por sua vez, terão um momento dos mais adequados para resgatar parcela de sua imagem positiva. Claro, se atenderem às demandas da sociedade por meio da miríade de entidades organizadas. Mas a matriz de onde sairão as respostas para a crise moral que abate o pais é, sem dúvida, a reforma política. Se não for feita, a indignação chegará ao topo da montanha. E 2016 abrirá um ciclo de terra devastada na seara eleitoral.

Formol e lentidão

O ex-presidente do STF, o amigo Carlos Ayres Brito, costumava dizer : "Tem muito formol nas estantes desses profissionais do Direito (os juízes). O Poder Judiciário, com frequência, se comporta de modo saudosista, com nichos que parecem laborar no passado". Ao que complementa o amigo Roberto Ferrari de Ulhoa Cintra : "Mas não é de hoje que o Judiciário é assim compreendido. Valho-me de Tocqueville, que consegue apresentar maravilhoso quadro que expõe claramente a dicotomia povo-judiciário : "Aos seus {do povo} instintos democráticos, os {juízes} opõem secretamente os seus pensadores aristocráticos ; ao seu amor à novidade, o seu supersticioso respeito a tudo que é antigo ; à imensidade de seus propósitos, as suas vistas estreitas, ao seu desprezo às regras, o seu gosto pelas formas ; e ao seu ardor, o seu hábito de proceder com lentidão".

Clima mais limpo ?

Nos últimos dias, sentiu-se um clima mais limpo. Dólar baixando, empregos com carteira assinada voltando, grandes investimentos anunciados para São Paulo, Petrobras mostrando seu balanço negativo (o que foi positivo), bandeira branca sendo erguida em alguns ambientes. Vamos esperar pelo 1º de maio.

Perfis em evidência

Alguns perfis aparecem em destaque na paisagem conturbada da política, a começar pelo vice-presidente da República, Michel Temer, cujo papel de articulador político do Executivo lhe confere extraordinária força. Luiz Inácio Lula da Silva, cuja performance esportiva numa academia é o aviso de que poderá reentrar na arena eleitoral ; Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, que vai usar a escada das Olimpíadas para garimpar nas águas correntes de 2018 ; Paulo Skaf, presidente da Fiesp, que lidera a batalha pela Terceirização e torna-se um dos mais arrojados pilotos da nova leva de políticos ; Geraldo Alckmin, o governador de São Paulo, que começa a minar as chances de Aécio Neves para 2018 ; a senadora Marta Suplicy, que está deixando o PT e embarcando no PSB ; o senador Ronaldo Caiado, que começa a olhar para horizontes mais altos. Voltarei ao assunto.

PMDB com candidato

Já está decidido : o PMDB terá candidatura própria para a presidência da República em 2018 ; e se esforçará para ter o maior número possível de candidatos a prefeito em 2016. Daí a inferência : mais cedo ou mais tarde, PMDB e PT desconstruirão sua frágil aliança.

Paes, Cabral e Pezão

Esse trio do Rio de Janeiro tem sérias dificuldades de abrir espaços no território da política. A trindade parece ter feito um pacto : todos por um, um por todos. O problema é a imagem negativa de um é transportada naturalmente para todos.

Imprensa

Os grandes grupos de mídia passam por um momento de grandes dificuldades. Grandes nomes estão deixando redações. Revistas estão sendo fechadas. A publicidade entra em retração. A crise é sistêmica.

PDT sai ou fica ?

Carlos Lupi, o todo poderoso comandante do PT, disse com todas as letras : o PT roubou demais e se esgotou. Um senador do PT, Humberto Costa, retrucou : Lupi é boquirroto. Bom, Manoel Dias, ministro do Trabalho por ele indicado, sairá ou ficará ? Ao que tudo indica, tudo será como antes no quartel D'Abrantes.

PT e Marta

Saindo do PT, Marta Suplicy poderia perder o mandato, caso o partido entrasse na justiça pedindo a vaga. Marta foi sabida : na longa carta que apresentou, deixou explícito o argumento que lhe daria ganho de causa : o PT mudou de eixo, deixou de abrigar o escopo original.

Casa própria

O financiamento da casa própria passa por grande mudança. Caixa Econômica exigirá entrada de 60% para financiar imóveis com valor acima de R$ 750 mil. O setor está esfriando. E o sonho da casa própria se desmancha.

O talento assusta

Quando Winston Churchill, bem jovem, acabou de pronunciar seu 1º discurso na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado de seu desempenho naquela assembleia de raposas políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e cochichou em tom paternal :

- Meu jovem, você cometeu um grande erro ; foi demasiado brilhante neste seu primeiro discurso ; e isso é imperdoável. Devia ter começado mais na sombra e gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou, hoje, você deve ter feito uns 30 inimigos ; o talento, meu jovem, assusta.

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Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.