O último rei

Edson Vidigal*

Nem a derrocada do último rei da Escócia, como era chamado Idi Amin, o inicialmente popularíssimo Presidente de Uganda e depois o cruel e megalômano ditador que se aconselhava com jacarés em Kampala, serviu para aliviar a ficha do seu homônimo que nunca tendo sido interlocutor nem de aracnídeos, contenta-se apenas em olhar, e assim mesmo de longe, as saias das meninas ou a agarrar que nem goleiro da seleção as bananas que ainda lhe atiram.

Idi Amin, brasileiro naturalizado, de um 1,80m de altura, pesando um pouco mais que um japonês campeão de sumô, algo em torno de uns 230 quilos, está mesmo uma fera.

A pressão arterial de Idi não pára de subir e agora com essa receita do doutor Temporão de que certas agonias se curam, como sugeria o Cazuza, procurado vaga, uma hora aqui, a outra ali, no vai e vem de alguns quadris, até o dia nascer feliz, o nosso patrício, brasileiro igual a poucos aqui nascidos, está insuportável.

Ainda virgem aos 37 anos, mas não que a isso o tenham obrigado, numa espécie de voto de castidade, enquanto vivesse sob o jugo de alguma religiosa fé, mas porque, achando-se o sabido, sempre entendendo que nada melhor do que um dia após o outro, achou de esperar por uma chance melhor, por uma chance melhor, e quando caiu em si 37 anos já se completaram, e nada.

Agora o Idi, coitado, não podendo mais perder tempo, está naquela de que se a farinha é pouca, logo o meu pirão é o primeiro. Nada de passar adiante esperando que depois pode vir o melhor.

Sua aspiração é sincera, sua postulação é justa, até mesmo porque se, no seu caso, a solução levasse em conta o lugar da fila não haveria duvida que a macaca que pintasse no pedaço, a primeira macaca corajosa que desfilasse à sua frente ganharia, em troca o seu reino.

Anos antes, muitos anos antes, acho que o Idi nem era nascido, o Geraldo Pereira avistando no morro uma escurinha obcecou-se.

E se danou a cantar – ó escurinha tu tens que ser minha de qualquer maneira, te dou meu boteco, te dou meu barraco, que eu tenho no morro de mangueira, comigo não há embaraço, vem que eu te faço meu amor, a rainha da escola de samba, que o teu nêgo é diretor.

Esse aceno de nepotismo o Idi não pode fazer.

O máximo que o Idi pode é dizer meu reino por uma macaca, coisa que leão nenhum no mundo ousa dizer, meu reino por uma leoa, quanto mais um macaco que, de tão esperto que se julga, já fez cosquinhas no rei das selvas enquanto tirava um cochilo de sesta após ter faturado uma gazela numa sombra de enorme moita, ensejando não obstante isso as maledicências altamente comprometedoras da até então respeitável reputação de sua majestade.

Em sua fase adulta, aliás, desde o despontar da adolescência, quando começou a assustar as estudantes de veterinária que lhe chegavam mais perto, o Idi nunca ao menos se enroscou numa fêmea, isto porque ou era um bebê, não confundir com BBB, ou uma gorila juvenil.

Dessas acusações de abusos que estão ultimamente na moda o Idi está livre.

Se resolver disputar alguma eleição, sim noutros tempos foram eleitos o rinoceronte Cacareco em São Paulo, o Bode Cheiroso em Recife, o Macaco Tião no Rio de Janeiro, se o Idi for disputar alguma eleição não estará, com certeza, entre aqueles brasileiros que tem como dístico – meu passado me condena.

O Idi Amin, do zoológico de Belo Horizonte, tem ficha limpa. O seu problema é que ficou viúvo duas vezes, a primeira de uma certa Dada que veio com ele da França, e a segunda de uma certa Cleópatra, que de tanto apanhar do marido em São Paulo – e não havia ainda lei Maria da Penha, foi mandada para ser a segunda do Idi, e aí também não aconteceu nada.

Mas nada disso é causa de inelegibilidade.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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