Muito se tem cantado, e mais ainda se cantará, louvando a amizade, a parceria afetiva e de sonhos entre irmãos ou camaradas.

Esta palavra – camarada – tanto serve para designar companheiros de armas, infantaria, (por exemplo, avante, camaradas...) quanto para definir aquele ou aquela com quem se divide a cama.

Muitas parcerias têm rendido bons resultados quando somam talento com sentimento, inspiração romântica e paixão amorosa com canção.

Os parceiros atuam como se o plural que são se resumisse ao singular em que resultam.

Nas canções mais que nos discursos, há perfeita sintonia entre sons e palavras, melodia e poesia.

Qual parceria não sendo a de Tom e Vinicius faria "Chega de Saudade"?  "Pra Dizer Adeus" de Torquato não teria sido de bom acabamento se o Edu não a completasse com os versos da segunda parte e os acordes gerais.

Há casos de autor parceiro de si mesmo – Chico Buarque não seria por um bom tempo o Julinho da Adelaide driblando a censura do regime militar se depois de algumas provocações não tivessem os espiões do regime descoberto que o neguinho filho da preta Adelaide era também, ao mesmo tempo, o filho de D. Maria Amélia e do Professor Sergio Buarque.

("Acorda amor/ Não é mais pesadelo nada / Tem gente já no vão de escada /Fazendo confusão, que aflição / São os homens / E eu aqui parado de pijama / Eu não gosto de passar vexame / Chame, chame, chame /Chame o ladrão, chame o ladrão / (...)"

Niemayer morreu como sinônimo de Brasília, mas foi a sua parceria com Lúcio Costa que lhe ensejou os espaços arquitetônicos que soube preencher com inspiração e talento.

Perón, na Argentina, teria chegado aonde se mantém até hoje sem a parceria destemida de Evita? E Fidel sem Che até onde teria ido? Chitãzinho sem Chororó? Obama sem a Michelle?

Na política por estas paragens, as parcerias têm sido mais deletérias que saudáveis.

A parceria de Vitorino com todos os Presidentes da Republica, civis ou militares, fazendo moeda de troca com os votos dos Deputados e Senadores que encabrestava no Congresso lhe rendeu poder e os desmandos de uma oligarquia que de uma só vez atrasou o Maranhão em exatos 20 anos. Minha geração indignada achava que 20 anos era muita coisa.

O coronelismo daqueles tempos deitou raízes rios adentro e terras afora. Todo aprendiz de coronel da política começa seu curso com gargarejos de intolerância, exercícios de egocentrismo e atitudes de arrogância.

Os falsos profetas parecem não gostar de parcerias entre si. Eles preferem a ação solitária no estelionato, a camaradagem de si para si mesmo na pilhagem, a parceria com a mentira, - ela, a mentira, argamassa do caos.

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Edson Vidigal é ex-presidente do STJ e professor de Direito na UFMA.

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