Desconhecer é nada saber. Uma pedra não sabe nada. Uma planta sabe se alimentar, crescer e multiplicar-se. Um animal sabe mais algumas coisas, mas tem lá os seus limites. Ao ser humano cabe conhecer, que é saber e, principalmente, saber o que importa. Mas ele também aprende como saber o que não tem qualquer relevância, ou seja, cultura inútil como dizíamos nós, os antigos. Mas o pior de tudo é o conhecimento falso. Isto já era velho, mas então veio a internet.

Internet, ora a internet, presente para sempre em nossas vidas por meio de um casamento mais indissolúvel do que a divisão de um elétron ao meio. Ela é uma verdadeira maravilha para a aquisição de conhecimento. Mas também insuperável na transmissão de conhecimentos verdadeiramente falsos e outros irrelevantes. Quanto a estes, ficar sem eles não representa qualquer decréscimo cognitivo.

Podíamos cogitar que a internet representaria apenas uma modernização da maneira pela qual as informações hoje circulam. Isto é verdadeiro, mas também podemos verificar que se trata de uma mudança não somente de grau, mas também de natureza. Antes a informação era encontrada principalmente nos textos escritos. Nos dias atuais ela está nos arquivos eletrônicos do disco rígido dos computadores, nas pen-drives, nos discos CDS e DVDs e na nuvem, que é um eufemismo para dizer “lugar incerto e não sabido” e somente revelada imaterialmente na tela do seu aparelho eletrônico, quando alguém a invoca com um click.

Uma grande mudança gerada pela internet está no fato de que alguém pode buscar uma informação (ou desinformação, como queiram) e dispará-la para milhares de pessoas imediatamente que, por sua vez, a fazem ricochetear pelo mundo eletrônico afora, sem saber o seu criador que fim ela levou. E a circunstância de que uma notícia circula eletronicamente e entra nos aparelhos de infinitos destinatários representa em si mesmo certo aspecto de que se trata de uma verdade e, como tal, ela percorre um caminho infindável. Experimente o leitor transmitir uma notícia sobre pesquisadores de uma universidade chinesa (é só um exemplo, não pensem mal) conseguiu criar dentes em uma galinha e que, desta forma, elas poderão comer milho direto das espigas, não sendo mais necessário debulhá-lo. Isto passa a ser uma verdade verdadeira, aceita por imensa quantidade de leitores.

Significa intuir que a internet extinguiu de maneira exponencial qualquer senso crítico de uma significativa quantidade de usuários, presas fáceis desse tipo de notícias que são veículos de sua circulação mundial, mais eficazes do que a viagem internacional de qualquer novo vírus.

Como elemento aglutinante desse fenômeno internetal nota-se que o ser humano passou por uma transformação biológica, tendo acrescentado ao seu corpo um membro novo, mais comumente chamado como celular. Já experimentou ficar longe dele, mesmo que seja para ir ao banheiro? Você o acessa de madrugada quando vai ao banheiroi? Quando está longe dele você se sente incompleto? Não lhe está faltando alguma coisa no seu corpo, como um braço ou uma perna? E quem tem mais de um celular? Esse, coitado, fica mais doido do que barata que cheirou inseticida, girando de um lado para o outro sem saber que aparelho deve pegar primeiro.

Em relação aos celulares praticamente todos os usurários desenvolvem pavorosa crise de abstinência, não sendo capazes os donos (ele é que passou a ser nosso dono, reconheçamos) de deixá-lo dar o sinal da chegada de uma mensagem quando o ouvimos. E, neste caso, o WhatsApp se torna a maneira pela qual aquela informação seguirá imediatamente novos e insondáveis caminhos.

Nesse cenário eu vejo os livros desaparecerem progressivamente até que o último se desmanche de velho em suas folhas. Eu digo livro, livro, aquele de papel. Eu até aprendi a ler textos eletrônicos, inclusive livros. Mas, convenhamos não é a mesma coisa que ter nas mãos um conjunto de folhas de papel presas por uma capa. E com os livros desaparecerá a maneira mais segura que já existiu na transmissão do conhecimento. Isto porque a falsa literatura e a literatura irrelevante expressas em papel morrem logo. Os livros nos quais foi difundida deixarão de ser reeditados e aos poucos vão sendo esquecidos e até mesmo transformados em matéria reciclável para fins sem nobreza, mas necessários. Enquanto isto os registros eletrônicos são eternos, sem direito ao esquecimento.

Quer o leitor fazer um teste? Pesquise nas fontes de informação quais eram os livros mais vendidos de auto ajuda há trinta anos, aqueles que eram os tops das prateleiras das livrarias. Veja também que fim levaram romances baratos de autores não menos insignificantes. Ninguém mais os lê e nem mesmo bibliotecas os aceitam como doações. Enquanto isto os clássicos permanecem eternamente, revivendo a cada dia em novas traduções e versões. Imutáveis na letra, e insuperáveis como fonte do saber.

E o que é um clássico? Eu respondo dizendo que é um livro que um dia você revisitará com prazer, mais de uma vez. Pode ser uma peça de Shakespeare, mas também pode ser a Reinações de Narizinho, de Lobato. E quando você está sentado em sua biblioteca diante deles, olhando para aquelas capas tão conhecidas, sente um prazer inexcedível, antes mesmo de se dirigir para uma prateleira para acariciar um deles, pegá-lo e virar mansamente as suas páginas.

Nesse contexto, eu desejo conhecer e desconhecer o conhecimento irrelevante. Não é o caso quanto a este de ter medo de que o meu disco rígido fique cheio pela sua profusão indiscriminada. É que ele fica fazendo cócegas no cérebro e, de repente, pode contaminar o que nele tem valor. Amigos do WhatsApp, por favor me poupem. Caso contrário, terei de pedir demissão.

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*Haroldo Malheiros Duclerc Verçosa é sócio de Duclerc Verçosa Advogados Associados. Professor Sênior de Direito Comercial da Faculdade de Direito da USP.

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