"Tentava não me intimidar quando a conversa em sala era determinada pelos alunos homens, o que era bastante comum. Ao escutá-los, me dei conta de que não eram mais inteligentes que nós. Eram apenas mais incentivados a falar, navegando na maré ancestral da superioridade e estimulados pelo fato de que a história nunca lhes dissera o contrário".

O trecho citado foi retirado do livro “Minha História”, biografia da ex-primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama. O relato de Michelle refere-se ao período em que ela cursava o ensino superior, na década de 1980. E, vale lembrar, no contexto de um país com desenvolvimento social superior ao do Brasil. Mais de 30 anos se passaram e, ainda, emerge a necessidade de refletirmos acerca do que mudou – e se mudou.

No Brasil, os bancos das universidades estão a demonstrar que as mulheres - superando a onerosa condição histórica que lhes foi imposta – devem ocupar cada vez mais espaços na sociedade. Se o pressuposto é qualificação e competência, o ambiente acadêmico já está aí para indicar que, na “dança das cadeiras” do mercado de trabalho, a lógica é que a maioria dos lugares sejam ocupados pelo sexo feminino. Contudo, esse é o plano do deve ser.

No mundo concreto, o que ocorre é que as mulheres – a despeito das lentas mudanças no cenário – ainda precisam cotidianamente demonstrar a que vieram. Não é tarefa fácil. Mesmo nos espaços em que há mulheres, os valores masculinos ainda prevalecem. Como? Ao exigir, por exemplo, que mulheres deixem a maternidade em segundo plano e sejam sempre racionais –  como o padrão masculino, em tese, dá conta de ser.

Contudo, ao revés das (injustas) exigências impostas às mulheres, o que vemos são homens com os mais variados perfis ocupando os mais diversos espaços. Há algo errado. Por que não vemos mulheres com os mais variados perfis ocupando esses tantos espaços? Avançaremos quando conseguirmos nossas conquistas sendo o que se é. E mais: tendo condições de criar nossos filhos fazendo o que gostamos profissionalmente, no meu caso: a advocacia. Não precisamos optar.

Hoje, ainda é difícil, mas possível. Caminharemos para que amanhã nossos dias não sejam um eterno equilíbrio de pratos com uma pitada de culpa. O amanhã – espero – será de mais igualdade nos espaços de poder, no mercado de trabalho e na partilha das tarefas tidas como femininas. Com melhor logística e sem a culpa advinda das cargas sociais, haverá igualdade de condições. Mais mulheres chegarão.

Neste Mês das Mulheres, em que estou realizada pela maternidade e por ter escolhido essa linda profissão, ciente das dificuldades da realidade da maioria, registro minha homenagem àquelas que, como eu, equilibram os pratos e – cada uma à sua maneira – entram em cena.

Em especial, dedico este texto às operadoras do Direito, que exercem com maestria os múltiplos papéis sociais, mostrando a que vieram.

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* Carol Clève é advogada do escritório Clèmerson Merlin Clève - Advogados Associados e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).