Rua Tabatinguera

Conheça passagens marcantes sobre a história do logradouro

Há aproximadamente um mês, Migalhas noticiou o verdadeiro drama que se formou em torno da rua Tabatinguera. O prédio chantado no número 140, ocupado por cerca de 800 advogados, está na mira do Tribunal de Justiça de São Paulo, que quer desapropriar o edifício para instalar ali dependências de recursos humanos e administrativos.

Lembramos, então, que essa não foi a primeira vez que a Tabatinguera foi alvo de olhares cobiçosos.

A escritora e apresentadora Cacilda Decoussau Affonso Ferreira,no saboroso livro "Se essa rua fosse minha", conta que, na São Paulo antiga, quem chegava do Rio Janeiro, ou do litoral, vinha pela Tabatinguera, que por algum tempo foi chamada de rua do Matemático.

Raimundo de Menezes, no seu não menos prazeroso "São Paulo dos Nossos Avós", narra que no ano de 1773 uma senhora chamada dona Maria de Azevedo Silva, cheia de posses, obteve do Senado da Câmara a concessão de cinco braças de frente por quatorze de fundos pra o rio Tamanduateí. Tão logo conseguiu a concessão, tão logo começou a murar as braçadas de frente. E tão logo também nasceu a polêmica.

É que a rua Tabatinguera não era, como ainda não é, "uma rua qualquer". Sendo São Paulo, naquela época, uma cidade paupérrima de logradouros onde o povo pudesse passear, restava aos paulistanos apenas o espigão e as baixadas da Tabatinguera.

E não deu outra. Os vereadores – não aqueles que haviam votado a concessão à dona Maria de Azevedo, mas os que lhes haviam sucedido – acordaram que tal obra não devia ser admitida e mandaram cancelar a carta de terras que havia sido dada à distinta senhora.

Dona Maria protestou, mas preservar a Tabatinguera era preservar o bem comum - não só por ser o lugar de recreio e divertimento do povo, mas também porque era de lá que se costumava tirar o saibro para todas as obras da cidade.

O saibro, como nos explica Antônio Rodrigues Porto em seu rico livro "História da cidade de São Paulo através de suas ruas", era uma espécie de barro branco, com o qual se pintava as paredes das casas.

E foi justamente o barro branco, chamado "branco da Tabatinga" que fez surgir o nome Tabatinguera.

Além disso, era na Tabatinguera onde alguns se banhavam e lavavam suas roupas. Com a ação enérgica dos edis, a rua "continuou a ser o único logradouro público de São Paulo, naquela época e mesmo alguns anos depois, e a ser o ponto preferido pelas lavadeiras, que ensaboavam suas roupas no Tamanduateí...".

Mas isso não é tudo. Dois outros fatos marcam a história da rua Tabatingueira.

O primeiro deles relaciona-se com a epidemia de varíola, que grassou tragicamente São Paulo no século XVIII. Antônio Rodrigues Porto informa que para isolar os enfermos utilizou-se na época uma das casas do logradouro. Em razão disso, até hoje persiste certa hesitação para com o prédio que foi utilizado, já constituído uma espécie de lenda urbana.

O segundo fato diz respeito à construção da capela de Santa Luzia, em 13 de dezembro de 1901. Ainda segundo Porto, havia em São Paulo uma grade chácara situada na Tabatinguera, de propriedade de uma senhora chamada Ana Maria de Almeida Lorena Machado. Nos fundos da propriedade existiu uma fonte, chamada Santa Luzia. Resultante de uma nascente no meio do mato, a fonte era bastante procurada pelos que tinham problemas nos olhos. Passaram-se os anos e o tempo se encarregou de solidificar a fé que muitos depositaram em suas águas milagrosas.

Qual o nome mesmo ?

Apesar de ser uma tradicional rua de São Paulo, a Tabatinguera nem sempre teve esse nome. Por volta de 1830, o logradouro era chamado "rua do Matemático". Isso porque residia ali, naquele período, um destacado cidadão versado na ciência dos números.

Outra mudança veio com o episódio de Canudos. De acordo com Roberto de Pompeu Toledo em "A Capital da Solidão – Uma história de São Paulo das origens a 1900", a guerra causou um verdadeiro surto de mudanças de placas de rua no país. Dessa onda não se safou a nossa Tabatinguera :

"Além de Moreira César, outro homenageado em São Paulo foi o coronel Tamarindo, também morto na desastrosa terceira expedição contra o arraial do Conselheiro. Tamarindo, célebre por, na debandada, ter orientado (ou desorientado) os comandados com uma frase popular do Nordeste – “É tempo de murici, cada um cuide de si” -, passou a nomear, por um período igualmente efêmero, a rua Tabatinguera." (p.490)

Em 1899, foi mudado o nome da rua Tabatinguera para "dr. Rodrigo Silva", mas logo depois restabeleceu-se a outra rua.

E assim foi, até que no ano de 1914 a ladeira da Tabatinguera e a rua "Detraz da Boa Morte" passaram a ser uma só rua, com o nome de Tabatinguera.

Como se vê, é uma rua que tem história. Vimos aqui apenas alguns capítulos que renderiam, cada um deles, um livro próprio.

____________

____________

Leia mais :

_________________