Em tempos de ofensas verbais de todo tipo, é preciso muito cuidado com o uso das palavras e das comunicações.

Eu já comentei aqui nesta coluna, que na sociedade capitalista contemporânea, há muito tempo os profissionais de marketing descobriram que, para vender produtos e serviços, a comunicação com seu público-alvo poderia ser feita de modo indireto, com subterfúgios, com imagens ao invés de palavras, com frases que não necessariamente falassem do produto nem do serviço a ser vendido etc..

Posso dizer, sem medo de errar que, a grosso modo, antigamente a oferta apontava para a coisa em si e, com o passar do tempo, foi buscando metáforas ou símbolos que pudessem agradar e atrair o consumidor para as compras. Por exemplo, antigamente um anúncio de tevê diria o seguinte a respeito de uma geladeira: "Nossa geladeira é linda, espaçosa, dura muito e mantém os produtos fresquinhos". Mais para a frente, o anúncio diria: "Se você tiver nossa geladeira em sua cozinha, irá brilhar e ser especial. Todo mundo admira quem tem uma geladeira como essa".

A comunicação passou, digamos assim, de uma fase de apresentação concreta do bem a ser vendido para uma fase psicológica, social e até política da inserção do consumidor na sociedade. Cada vez mais, o criador da mensagem passou a investigar os anseios, desejos e interesses do consumidor. Não esqueceu, claro, das necessidades de seu público-alvo, mas passou a chamar a atenção de seu coração, de sua imaginação e, também, de sua própria imagem construída no meio social.

O problema é que isso, de algum modo, afetou e afeta a comunicação feita pelas pessoas em relação aos fornecedores, às instituições, ao grupo social a que pertencem etc. Ingressou também no universo de comunicação entre as pessoas que discutem entre si e lutam para defenderem seus pontos de vista. Algumas palavras e frases têm indicações expressas e outras, são metafóricas, mas carregadas de sentido (por exemplo, "cdf", "rolezeiro", "patricinha", "playboy", "mauricinho" "coxinha", "mortadela" etc.).

Mas, em todos os casos, quer nos expressos, quer nos indiretos, há grande chance de confusão e incompreensão não só de quem recebe a comunicação como também por quem a faz e, dependendo do ambiente, pode significar "bullying", ofensa à honra etc.

Vejamos um exemplo: um discurso de um presidente é feito. Todos ouvem e em seguida surgem as interpretações das palavras proferidas das mais variadas formas possíveis. Ou surgem grupos muito díspares com duas interpretações completamente antagônicas. Tanto faz o que foi dito no discurso: um grupo diz "excelente" e outro afirma "uma catástrofe".

O grande escritor e semiólogo Umberto Eco, já falecido, ensina que a vida é um paradigma das palavras. A partir da ideia de que semiose é um processo de produção de significados, diz ele que existe uma "semiose artificial da linguagem verbal, a qual se revela insuficiente para dar conta da realidade ou é usada explicitamente e com malícia para mascará-la, quase sempre com fins de poder"1.

De todo modo, muitos termos, tomados ao pé da letra de forma descuidada, isto é, sem um estudo mais aprofundado, podem gerar equívocos importantes ou simplesmente engraçados.

A subjetividade dos que opinam é de tal modo expressada que, muitas vezes, parece que cada lado está se referindo a falas tão diversas quanto seria possível. As palavras são as mesmas e proferidas na mesma ordem e entonação, mas uns leem e escutam uma coisa e outros algo totalmente diferente.

Essa "flexibilização” da linguagem pode até ser útil para que se vendam produtos e serviços (e, naturalmente, às vezes, se revelam falsas e enganosas) mas, quando se trata de uma comunicação social e/ou política podem gerar uma boa confusão: fica difícil saber afinal do que se trata, quais são os verdadeiros interesses em jogo etc.

Tudo bem, trata-se de democracia, mas que é confuso é. E fica difícil responder à pergunta do título: as palavras estão ganhando ou perdendo sentido?

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1 "Entre e mentira e a ironia". RJ: Editora Record, 2ª. Ed., 2006, págs. 30 e 31.
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Rizzatto Nunes

Rizzatto Nunes, é desembargador aposentado do TJ/SP, escritor e professor de Direito do Consumidor.

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