Mas uma vez, no último artigo do ano, eu abandono o tema do consumidor e publico um texto para a época de Natal.

Desta feita, apresento um trecho do meu romance "A Visita". Trata-se do diálogo entre o personagem principal e Teresa, a misteriosa senhora que a todo momento frequenta a casa deste personagem e que dá título ao livro.

Eis o trecho:

Tereza começa a conversa:

– Você é um homem de fé e de sorte.

– Tenho de admitir que sim. Tive sorte.

– Sabe o que dizem, né? Aproveite a sorte enquanto ela está a seu favor!

(...)

– Mas, nesse meu caso, parece até que os céus queriam me proteger.

– Quem sabe...

– Um anjo da guarda.

– É mesmo.

Fiz uma pausa, pois, ao mencionar "anjo da guarda", lembrei-me de uma passagem muito linda, contada pelo Flávio, que, junto do Benê, são meus amigos mais próximos. Disse para Tereza:

– Acabei de me lembrar de meu amigo Flávio.

– O que tem ele?

– É uma história linda que ele me contou. É sobre um anjo da guarda. Quer ouvir?

– Oba! Adoro histórias de anjos – disse Tereza, sorrindo e, como sempre, ajeitando-se na poltrona.

– O Flávio é jornalista. Escreve num jornal e conta suas reportagens num programa de rádio FM. Ouça o que ele me contou. É de arrepiar! Um dia, ele estava sentado do lado de fora do estúdio da rádio, aguardando a hora de entrar no ar. Naquele momento, uma mulher de uns trinta anos mais ou menos entrou na antessala e sentou-se a seu lado. Os dois se cumprimentaram e ela perguntou se ele também participaria do programa. "Qual programa?", ele perguntou de volta. "O que começa às quinze horas". "Não", disse Flávio, "sou jornalista e entrarei no ar daqui a pouco, às quatorze e quarenta e cinco, para ler um boletim". Daí ele aproveitou e perguntou para ela: "A senhora vai participar? Qual é o assunto?". "Ah!", respondeu ela, "Hoje, vão comentar a respeito de um livro que trata dos anjos e eu vim contar a minha experiência". Flávio ficou intrigado e pediu: "A senhora pode me contar o que se passou?". "Claro!", disse ela sorrindo e contou o seguinte: "Eu tenho uma filha de cinco anos, a Gabriela, linda, fofa, o amor da minha vida. Quando ela era ainda bebê e dormia no berço, aconteceu algo assustador e mágico ao mesmo tempo... Eu moro num apartamento que fica no décimo-quinto andar do prédio. Era uma tarde ensolarada. Gabriela dormia no seu quarto e eu estava na área de serviço passando roupa. Tocou a campainha. Fui atender. Era uma menina de cabelos castanhos lisos caindo sobre os ombros que aparentava ter uns dez, onze anos. Ela segurava uma boneca nos braços e disse: ´Vim brincar com a Gabriela. Vá buscá-la, por favor´. Eu achei estranho e respondi: ´A Gabriela é muito pequena para brincar com você´. Nesse instante, ela aumentou o tom de voz e, de forma muito incisiva, olhando bem para mim falou: ´Ande! Pegue a Gabriela já!´. Eu senti um calafrio percorrer meu corpo inteiro e fui correndo até o quarto: Gabriela havia escalado a borda do berço e estava no parapeito da janela aberta. Nessa época, meu marido e eu ainda não havíamos instalado rede de proteção porque pensávamos que a Gabriela era muito pequena e que não havia perigo. Agarrei-a em meus braços e a mantive colada em meu coração que batia a mil" – disse ela com lágrimas nos olhos. E terminou: "Voltei para a sala: a menina não estava mais lá. Depois, perguntei para o porteiro e para outras pessoas do prédio: ninguém conhecia uma menina com aquelas características. Era o anjo da guarda da Gabriela. Graças a Deus!".

– Adorei! É mesmo de arrepiar.

– Não é? Muito legal essa história. Será que funciona assim?

– Por que não?

– É mesmo. Por que não? Mas, Tereza, tem a ver com sorte ou com fé? Você disse que, se a pessoa tem fé e almeja alguma coisa com muita vontade e concentração, ela consegue. Desde que seja para o bem, claro.

– Sim.

– E a pessoa recebe sinais de como deve agir. É isso?

– Isso também. Às vezes, Deus manda buscar ou, então, manda um trem para a pessoa embarcar. Mas Ele não faz nada no lugar da pessoa... Você conhece aquela história do crente que morava à beira do rio e de quando vieram as enchentes?

– Não.

– É assim. João, muito crente em Deus, morava sozinho numa casinha à beira de um rio. Com as chuvas constantes, as águas começaram a subir e chegaram até o pé da porta da casa dele. Alguém bateu à sua porta e disse: "João, pegue suas coisas e vamos embora!". João respondeu: "Não. Deus não deixará nada de ruim acontecer comigo. Ficarei aqui rezando". As águas subiram mais. Quando estava na beira da janela da sala, um barco apareceu. Um homem que o conduzia falou com João pela janela aberta: "Vamos! Suba no barco porque as águas não param de subir". Mas não adiantou. Ele disse que estava protegido e ficaria ali rezando. Porém, as águas continuaram a subir. E, para não se afogar, João foi para o telhado da casa, onde ficou rezando. Surgiu um helicóptero. O piloto lançou uma corda com uma cadeira na ponta e, pelo megafone, falou: "Ei, você. Agarre na corda, sente na cadeirinha e aperte o cinto. Eu vou tirá-lo daí e levá-lo para um lugar seguro". João gesticulou que não iria e não foi. Permaneceu no telhado rezando. Só que as águas subiram mais e mais. Ele acabou morrendo afogado... quando chegou ao céu, João foi imediatamente falar com São Pedro. Disse: "Quero falar com Deus. Preciso fazer uma reclamação!". Vendo a aflição do homem, São Pedro abriu a porta e indicou a direção. João parou, então, diante de Deus e disse: "Como é que o Senhor foi deixar acontecer uma coisa dessas comigo? Eu acreditei tanto no Seu poder; acreditei o tempo todo. Fiquei rezando até o fim para que o Senhor me salvasse e morri afogado!". Deus respondeu: "Meu querido filho João, o que você queria que eu mais fizesse? Mandei baterem na sua porta, mas você não seguiu o homem. Depois, mandei outro te buscar num barco, mas você rejeitou. Então, enviei um piloto de helicóptero e você negou-se a sair de lá. Eu fiz a minha parte!".

Ela acabou de falar, deu uma bela risada e disse: "Muito boa! Muito boa!".

(...) Passou-se um breve período e ela emendou:

– É assim mesmo que funciona. Deus faz a parte dele e a pessoa tem de fazer a dela. Às vezes, a dela é muito trabalhosa, às vezes é simples, como tomar um barco. E tem mais: acontece bastante de a pessoa encontrar um trem parado na estação e não perceber que deveria embarcar nele. O vagão está lá, de portas abertas, prontinho para o embarque e ela não entra. É ela quem deve dar o passo na direção certa.

– Isso tem tamanho?

– Como assim?

– Isso vale também para as pequenas coisas?

– Meu caro Luiz, a bondade, a caridade, a compaixão, o ato de ajudar alguém ou a si próprio não têm tamanho. Não é algo que se meça por quantidade, metragem, peso. O bem é sempre o bem não importa a quem nem como. O bem é uma virtude, uma qualidade.

*

Desejo Boas festas para todos!

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Rizzatto Nunes

Rizzatto Nunes, é desembargador aposentado do TJ/SP, escritor e professor de Direito do Consumidor.

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