A leitora Cíntia Pereira envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas: 

"E quanto ao verbo pegar; o correto é dizer 'tinha pego' ou 'tinha pegado'?"

1) Na lição de Luiz Antônio Sacconi, "o verbo pegar é abundante na língua familiar; não o é na língua culta".

2) Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante lecionam que esse verbo, na língua culta, apresenta apenas o particípio passado regular (pegado).

3) Antonio Henriques, de igual modo, preconiza pegado como a "única forma aceitável do particípio passado de pegar".

4) Silveira Bueno preconiza a continuidade de existência e a possibilidade de uso normal de ambos os particípios – pegado e pego – de acordo com as regras previstas para os verbos abundantes no particípio: "com os verbos ter e haver usamos o particípio longo, invariável... Com os verbos ser e estar usamos o particípio breve, variável".

5) Na lição de Vitório Bergo, o particípio passado regular (pegado) é "forma correta, usada pelos clássicos em vez de pego, que é moderna, e nos diversos sentidos usuais, como seguro, medrado, rente, etc.".

6) Para Cândido de Oliveira, "ganho, gasto, pago, pego são usados indiferentemente para ambas as vozes (com qualquer auxiliar)", e "os particípios ganhado, gastado, pagado, pegado tendem a desaparecer".

7) Em outra obra escrita com Regina Toledo Damião, anota Antonio Henriques que, "apesar do uso corrente da forma pego, ainda sobrevive entre bons autores a forma pegado" na atualidade.

8) Para Sousa e Silva, que invoca a autoridade de Eduardo Carlos Pereira e de José Oiticica, pego "é um dos particípios de pegar (o outro é pegado), desconhecido, talvez, em Portugal, mas comuníssimo no Brasil".

9) Domingos Paschoal Cegalla assim resume a questão da sintaxe desse verbo, no que tange ao uso de seu particípio passado: a) Pegado "se usa com os verbos ter e haver" (Homens da vizinhança tinham (ou haviam) pegado o animal); b) Pego é "forma contrata de pegado" e "se usa, de regra, com os verbos ser e estar" (O cão foi pego pelos moradores da vizinhança – O animal estava pego); c) "Há tendência para se usar pego na forma ativa" (Um morador vizinho tinha (ou havia) pego o animal).

10) Ante a divergência apresentada entre os gramáticos, podem-se extrair as seguintes conclusões, de integral validade para o usuário da norma culta: a) o verbo pegar é abundante, assim na língua familiar como na língua culta, apresentando os dois particípios passados – pegado e pego; b) com tais particípios, o normal é seguir as regras previstas para os verbos abundantes e usar pegado com os verbos ter e haver, e pego com os verbos ser e estar; c) empregar, todavia, pego com os auxiliares ter e haver não pode ser considerado um erro; d) se pegado tende a desaparecer, o certo é que ainda existe e é usado em nosso idioma nos dias de hoje.

11) Ultime-se com a anotação de que a pronúncia do particípio passado irregular pego é fechada (ê), e não aberta (é), como alguns teimam em dizer, até porque pego "com a vogal e aberta é forma do verbo pegar (eu pego)".

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José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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