Ele faleceu há uns dois meses. Em seu velório revi colegas de nossa época de estudantes, dos idos de sessenta. Formamo-nos em 1969 e 1970. Ele foi meu calouro. Procurei proteger-lhe do trote. Tratei-o bem, pois desejava aliciá-lo para o PIU - Partido Independente Universitário, por mim presidido naquele ano. Logrei êxito, pois ele alinhou-se conosco e teve uma marcante participação na política acadêmica de então.

O governo militar se instalara em 1964, após a deposição do presidente Jango Goulart. O meio estudantil efervescia. O sentimento comum era o de incerteza e de absoluta insegurança. Sabia-se que a ruptura institucional poderia nos conduzir por caminhos tortuosos a uma situação de risco institucional.

Na Faculdade Paulista de Direito, da PUC, como nas demais, havia os que aplaudiam o golpe, para eles a revolução; os que lhe eram contrários e aqueles que se colocavam em uma posição de expectativa. Para estes, a questão ideológica, a preservação ou não da democracia e das liberdades individuais, pouco importavam. A tomada do poder era um fato consumado. Estavam apenas aguardando os futuros acontecimentos, sem nenhum envolvimento favorável ou contrário.

Os que se posicionavam contra o golpe estavam divididos. Aqueles engajados em partidos ou em organizações já existentes ou em formação, queriam ações concretas contra o regime instalado, que iam dos protestos à luta armada. Outros também se opunham claramente contra a tomada do poder pelos militares, mas não concordavam com ações agressivas e provocativas, que poderiam conduzir a um endurecimento do regime. E, tinham razão, pois pretextando combater a subversão em 1968 editaram o malfadado ato institucional nº 5. O PIU abrigava alguns colegas favoráveis ao golpe, mas era uma minoria sem voz. Os demais queriam perfilar o caminho da política para o combate à ditadura.

Desde a instalação do governo militar, nós ansiávamos pela rápida redemocratização do país, esperando que as eleições presidenciais marcadas para 1965 fossem realizadas. Quando elas foram canceladas, percebemos o risco da perpetuação no poder por aqueles que o haviam assumido ilegitimamente. Optamos pela atuação política como a via a ser percorrida para a normalização institucional.

Liderava o movimento dos radicais José Dirceu, por quem eu nutria simpatia, reconhecendo-lhe incontestável liderança. Era da minha turma, mas não se formou conosco, pois foi preso em Ibiúna no Congresso da UNE, em 1968. Travamos memoráveis debates nas assembleias e nas frequentes reuniões realizadas para discutir movimento estudantil, em face da anormal situação política.

Durante o velório do amigo, companheiro de partido e das lutas acadêmicas, vários fatos foram lembrados. A sua coerência e a sua coragem foram enaltecidas. Sim, coragem pois esta não era um requisito apenas dos que saiam à rua para protestar e para enfrentar a polícia. A coragem também era um atributo nosso, que nos opúnhamos à ação dos radicais. A coragem era exigida exatamente porque estávamos contra os métodos de combate à ditadura então vigorantes. E, como era difícil contrariar os radicais. Éramos rotulados de direitistas, gorilas, defensores do golpe. Mentiras eram lançadas sem nenhum pudor, mas nós nos mantínhamos coerentes e inabaláveis em nossas posições.

O amigo e fiel companheiro se manteve sempre na vanguarda de nossos movimentos dentro da Faculdade. Mas, nós tínhamos um outro interesse e o satisfazíamos fora da escola. Constituímos um grupo, para, sem abdicar das preocupações políticas, aliás como complementação e linha auxiliar dessas, cultivamos prazeres próprios do espírito acadêmico, quais sejam os ligados à boa mesa e à música.

Assim, Fábio de Campos Lilla, este é o querido amigo agora pranteado, e eu, criamos a "Confraria Baco" . Um grupo de seletos companheiros, escolhidos por suas aptidões gastronômicas, etílicas e musicais, que se reunia aos sábados para o almoço na Serra de São Roque, onde se comia frango com polenta e se bebia vinhos da região, compatíveis com as nossas parcas economias, portanto, de sofrível qualidade. Diga-se que para nós, o frango e seus acompanhamentos eram iguarias estupendas, e o vinho era o único accessível ao nosso bolso. Deixava nossas línguas escuras e os nossos fígados com sequelas que nos acompanharam para sempre.

Nós também cantávamos. Fábio, que se tornou um dos mais festejados e exitosos advogados tributaristas do país, era, sem nenhuma dúvida, o mais desafinado de todos nós. No entanto, não possuía consciência de sua inaptidão para a música, e com entusiasmo soltava a sua péssima voz. Eu tinha pena das mesas vizinhas.

Quero registrar o meu pleito de saudade por aquele que desde os bancos universitários soube com coragem e coerência honrar os seus ideais democráticos e uma vez advogado, dignificar a profissão como poucos.

Fábio e a nossa "Confraria Baco" simbolizam a capacidade dos estudantes daqueles sombrios tempos de, sem abrir mão de seus ideais e sem deixar de persegui-los, de cultivar a alegria de viver.

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Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Antônio Claudio Mariz de Oliveira é advogado.