O contraste entre a pacatez de uma sociedade acostumada às rígidas rotinas familiares e às poucas atividades sociais, marcadas também por não menos rígida liturgia, e a febril, buliçosa e provocativa conduta dos seus novos habitantes, vindos de várias partes do país, começavam a imprimir uma conotação cosmopolita à cidade e a lhe proporcionar novos horizontes culturais, políticos e sociais

Os estudantes de Direito do Largo de São Francisco inauguraram novos hábitos e, principalmente, foram responsáveis por eventos jamais vistos na pauliceia. Alguns hilários, outros assustadores, mas que sempre retiravam a cidade do marasmo costumeiro e forneciam abundante material para comentários, disque disques, fofocas, bisbilhotices de toda ordem e natureza. Estava a sociedade de São Paulo se civilizando.

Como exemplo de um desses eventos, imagine-se, naquela época, uma figura eminente no meio jurídico e social ser flagrado, por outra não menos importante, no quintal da casa, em idílio amoroso com uma escrava serviçal. Não se pense ser o fato raro, mesmo à época. Raro era o flagrante.

Pois bem, o juiz de órfãos de São Paulo, dr. Elias Chaves, certa noite, ouviu estranhos ruídos no vasto quintal de sua casa, localizada no então Largo da Glória. Tratava-se de uma chácara com vasto pomar, árvores e aprazíveis locais cercados por flores e plantas de todas as espécies. Aliás, assim eram todas as residências daquela época. Chácaras de grande extensão que abrigavam casas senhoriais, amplas e imponentes. Estando-se nesses locais, a impressão era de se estar em uma propriedade rural. Essa ideia era reforçada pela existência de animais criados nas vastas áreas externas à casa.

Em face da inusitada movimentação o juiz armou-se com uma longa bengala de rumou para fora. Estivéssemos nos dias de hoje, o dr. Elias Chaves se municiaria de arma de fogo. Assim agiria, influenciado por estímulos oficiais, que pregam a utilização de armas de fogo, para que cada cidadão não titubei em aplacar os seus receios, resolver as suas pendências e superar as suas frustrações, à bala.

Quando se aproximou da zona de perigo, reconheceu uma sua escrava, doméstica da casa, em ardoroso idílio com um parceiro, prontamente desaparecido.

No dia seguinte, o juiz de órfãos levou o ato ao conhecimento do delegado Francisco Maria de Souza Furtado de Mendonça, formado em São Francisco em 1838 e futuro professor da escola. Residia ele na hoje rua da Glória, chamada então de Chácara dos Ingleses, quase em frente ao Largo da Glória, local da Chácara de Elias Chaves.

As investigações não lograram descobrir o companheiro da jovem no bucólico e furtivo encontro amoroso.

No entanto, posteriormente, o Dr. Francisco Furtado empenhou-se fortemente para conseguir a libertação de uma escrava que executava serviços caseiros para a família do dr. Chaves. Esse fato parece ter reavivado a memória do juiz de órfãos, pois teve confirmada uma desconfiança que lhe assaltou desde a visão do vulto que fugia de seu quintal. O suspeito deveria mesmo ter sido o seu vizinho, delegado de polícia.

Já nos primórdios da Faculdade, os estudantes passaram a adotar condutas e práticas que se perpetuaram pois foram assimiladas por todas as gerações vindouras. Uma delas foi o pendura. Não há registros sólidos dos primeiros penduras dados em São Paulo. No entanto, é certo que as mesmas razões que impeliram os estudantes à prática das famosas rapinagens motivaram-nos a "pendurar" despesas em bares e restaurantes. E qual a razão? Sem dúvida foram duas as razões, a fome e a falta de dinheiro. Rapinagens e penduras famélicos. Aliás, os penalistas podem afirmar sem medo de erro que o furto famélico encontra as suas raízes no Largo de São Francisco, ou melhor na situação de penúria de inúmeros de seus primeiros estudantes.

Há registro de um acontecimento ocorrido em um restaurante da então freguesia da Penha, que pode ser considerado o embrião dessa tradicional prática que perdura até hoje.

Os alegres estudantes, depois de se fartarem com iguarias e fartas doses etílicas, verificaram estar desprovidos de numerário suficiente para fazer frente às despesas constantes da conta apresentada pelo já preocupado proprietário.

Em face do impasse, liderados por Filástrio Nunes Pires, saíram em defesa de um colega, cuja companheira estaria sendo molestada com gestos e olhares pelo caixa do estabelecimento. Da grande algazarra, os estudantes passaram a ameaçar fisicamente o funcionário que nada entendia, pois nada fizera. Tão grande foi a confusão, que o dono do restaurante pediu que os acadêmicos se retirassem. Foi prontamente atendido pelos jovens, que saíram eufóricos pois aplacaram a fome e a sede e mantiveram intactas as suas parcas finanças.

outras edições
Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Antônio Claudio Mariz de Oliveira é advogado.