Sou solidário e não pago

Abro a coluna de hoje falando de solidariedade.

Antônio Carlos Portela era um senhor rico e bom. Dava aval a todo o mundo em Petrópolis. Gostava de política. Gostava demais. Ao se aproximar a campanha eleitoral, sua maneira de ajudar os amigos era avalizar empréstimos para as despesas de campanha. Na última eleição, avalizou um título para um candidato a deputado, que perdeu feio e ficou em dificuldades de pagar. O gerente do banco, sabendo que não receberia do devedor, foi ao avalista :

- Senhor Portela, o título está vencido. Preciso que o senhor pague. Como avalista, o senhor é solidário.

Resposta matreira :

- Sou, sim. Sou muito amigo dele e estou inteiramente solidário com ele. Se ele não pagou, é porque tem seus motivos. Porque estou solidário, não pago também.

A força do imponderável

O imponderável - eis o fator que muda os rumos da política. É o que estamos começando a distinguir nos esfumaçados horizontes da política. O bombardeio que se desenvolve nos costados da Petrobras pega alguns atores de chofre, maltratando suas imagens e, em alguns casos, inviabilizando seus sonhos. Vejam o caso do deputado André Vargas, um dos mais fortes perfis do PT, vice-presidente da Câmara dos Deputados e até então o mais gabaritado candidato à presidência da Casa na próxima legislatura. Pois bem, perdeu sua condição de candidato e vê ameaçado seu próprio mandato. A licença de 60 dias que tirou não o ajudará a fechar as cicatrizes abertas pelo tiroteio midiático que mostrou diálogos considerados aéticos e imorais com o senhor Alberto Youssef, sob suspeita de cometer crimes.

Vargas e a sangria no PT

A esta altura, não há outra alternativa para o deputado Vargas senão a de renunciar ao mandato. Ora, não será uma curta licença que apagará as manchas já deixadas nos flancos petistas. O PT quer cumprir, este ano, sua agenda : eleger um grande número de governadores e as maiores bancadas Federal e estaduais do partido. Se André Vargas continuar exercendo seu mandato, será o alvo predileto para muitos candidatos da oposição e mesmo para alguns candidatos de siglas aliadas. A partir do PR, seu Estado, onde a senadora Gleisi Hoffmann será a candidata do PT. Em SP, pelo envolvimento do deputado com o chamado doleiro Youssef - que teria ligações com a empresa de remédios Labogen - o candidato Alexandre Padilha, do PT, entrará na dança. Ou seja, nele respingará o sangue provocado pelo bombardeio midiático.

O IP, Índice Petrobras

A Petrobras continuará como alvo central dos opositores. Não adianta, a essa altura, exibir argumentos favoráveis à compra da refinaria de Pasadena, nos EUA. O rombo de imagem e os estragos sobre candidatos do PT são um fato irretorquível. Lula poderá atenuar os efeitos, mas a mídia terá o condão de amplificar o caso. A queda de seis pontos na pontuação da presidente Dilma já acusa o IP - o que chamo de Índice Petrobras. Ninguém está imune ao poder de destruição da mídia. Nem Lula. Como se viu, também ele, mesmos continuando a ser o maior cabo eleitoral do país, mostra tendência de queda.

Os danos maiores

Os danos mais impactantes do IP (Índice Petrobras) e IV (Índice Vargas) serão maiores nas arenas petistas de SP, RJ, MG e PR. Ou seja, no Triângulo das Bermudas e no Estado natal do deputado e da senadora Gleisi. Em SP, a par da questão, vê-se, ainda, a má avaliação do prefeito Fernando Haddad. Será muito difícil que o ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, consiga auferir os 30% históricos do PT em SP. No RJ, o senador Lindbergh também terá dificuldades de subir no ranking eleitoral. Em Minas, o ex-ministro Fernando Pimentel também será atingido. Portanto, esses Estados, com os colégios eleitorais mais densos do país, poderão determinar o sucesso ou o insucesso da ainda favorita, presidente Dilma.

E o volta Lula ?

Pergunta recorrente : Lula tem condições de voltar ? Respondo : só em situação de descalabro geral com efeitos drásticos sobre a imagem da presidente Dilma. E lembro. Voltando ou não, precisamos ter em mente que nem o Brasil nem Luiz Inácio são os mesmos de tempos atrás, o que nos leva a recitar a máxima de Heráclito de Éfeso : "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio". As águas estão sempre se renovando.

O caso da Guiné

A revista Piauí de março traz reveladora reportagem sobre interesses brasileiros na Guiné Equatorial. Matéria que envolve a Vale, que teria fechado acordo com um israelense em um negócio bilionário e muito suspeito na República da Guiné.

Sinalizações de pesquisas

Urge ler outros sinais apontados pela última pesquisa Datafolha. 65% apontam desejo de mudanças e outros tantos dizem que esperavam mais da presidente Rousseff. Mais um dado curioso : somando abstenção, votos nulos e brancos e mais os nanicos, teremos 35% dos votos. Contra 38% da presidente. Ou seja, há um imenso território a se explorar. Mas e a equação BO+BA+CO+CA - Bolso, Barriga, Coração, Cabeça ? Será que o bolso em outubro próximo terá o "rico dinheirinho" de hoje ? E se a cesta de alimentos for uns 10% a 15% mais cara ? Interrogações por todos os lados.

Duas linguagens

A campanha deste ano será também uma disputa de linguagens : a do PT e a do PSDB. Vejamos exemplos, a partir do dicionário de Lula : "Já tomei tanta chibatada nesta vida que minhas costas estão mais grossas que casco de tartaruga ; não sejam apressados : uma jabuticabeira leva tempo pra dar jabuticaba ; uma mulher demora nove meses para dar à luz ; no Brasil, alguns comiam a massa e o chantili do bolo, mas para a grande população ficava aquele chumbinho de enfeite que colocam em cima do bolo". Na reunião do G-20 : "Você não faz negociação com o pé na parede, na base do dá ou desce, existe uma negociação". Os tucanos usam termos herméticos : "Desconforto hídrico temporário" (no lugar de seca braba) : "redução compulsória do consumo de energia elétrica (corte de energia) ; retracionismo na empregabilidade (desemprego) ; compensação pecuniária às distribuidoras pelo déficit que enfrentam devido ao racionamento (aumento de tarifas de energia)".

O estilo Jânio

Apesar de sofisticar no uso da linguagem, quando estava diante de audiências intelectualizadas, Jânio Quadros foi o guru da expressão popular. Na campanha de 1985, aquela em que ganhou de Fernando Henrique, depois deste ter sentado na cadeira de prefeito de SP antes da apuração final dos votos, levou Delfim Netto para um comício na Vila Maria. O ex-ministro da Fazenda assim concluiu sua peroração palanqueira : "A grande causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário". Após a fala, Jânio puxou Delfim de lado e cochichou : "olhe para a cara daquele sujeito ali. O que você acha que ele entendeu de seu discurso ? Ele não sabe o que é processo, não sabe o que é inflacionário, não sabe o que é déficit e não tem a menor ideia do que seja orçamentário. Da próxima vez, diga assim : a causa da carestia é a roubalheira do governo". O guru da economia, a quem todos hoje recorrem para explicar os sobressaltos que deixam interrogações no ar, passou a reservar seu economês para plateias mais acessíveis ao vocabulário de questões complexas.

A agenda econômica do PT

O economista Samuel Pessoa execra a agenda econômica do PT. Sua leitura no Estadão do último domingo : "É uma agenda para colocar o Estado - o setor público - interferindo no desenvolvimento econômico. É o Estado decidindo a alocação de capital. É o Estado fazendo microgerenciamento das políticas de impostos e das tarifas de importação para incentivar alguns setores escolhidos segundo certos critérios. É o Estado fazendo microgerenciamento da política de intermediação financeira. Além disso, tenta adotar teorias heterodoxas sobre o processo inflacionário que acabam interferindo na liberdade do Banco Central e tendo um impacto sobre a inflação. É uma agenda grande. Começou no governo Lula, antes de 2009. Mexe nos graus de independência das agências reguladoras. Coloca uma parte grande da regulação de volta para os ministérios e, além de colocar de volta para os ministérios, passa a ter muita discricionariedade na regulação de diversos setores da economia".

A agenda econômica do PT - II

"Ou seja : ao invés de usar um sistema de regras e procedimentos, pesos e contra pesos, passamos a ter a mão pesada do Estado. A gente vê isso no setor de petróleo, no setor de energia elétrica. Até na reformulação do marco ferroviário, com a ideia de separação vertical - que eu acho que não vai funcionar. Foi uma má ideia. Tem uma lista longa. Esse pacote não é da sociedade. É um pacote de um grupo de pessoas que está no centro da formulação da política econômica e que avalia que essas medidas são necessárias para acelerar o crescimento econômico. A minha avaliação é que esse ensaio nacional desenvolvimentista deu errado. Deu tudo errado. Foi uma tragédia para o País. Foi adotado por motivos ideológicos e acho que ele tem de ser revertido".

Honestidade

Fecho a coluna falando de Honestidade. Na China antiga, um príncipe estava para ser coroado e, de acordo com a lei, deveria se casar. Resolveu escolher a esposa entre todas as moças da corte. Distribuiu a cada uma das pretendentes uma semente, pedindo que dentro de seis meses elas trouxessem as flores que nasceriam. Quem trouxesse a mais bela flor seria escolhida a imperatriz da China. Depois de seis meses, todas as moças fizeram fila no palácio ostentando belíssimas flores. Apenas uma delas estava sem nada na mão. O príncipe chegou e depois de olhar para todas, dirigiu-se a uma das moças, proclamando : "Escolho esta moça como minha futura esposa. Ela foi a única que cultivou a flor que a torna digna de se tornar uma imperatriz - a flor da honestidade. Informo que todas as sementes que entreguei eram estéreis".

Conselho à presidente da Petrobras

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado às autoridades que lideram as ações voltadas para a Copa do Mundo. Hoje, dirige sua atenção à presidente da Petrobras, Graça Foster :

1. Procure enfrentar o bombardeio contra a gestão antiga da Petrobras sem medo e sem tergiversação. Quem não deve não teme. A senhora deve ter informações fundamentais para dar. O país delas precisa.

2. A Petrobras é um símbolo de nossa grandeza e dos nossos potenciais. Contar o que aconteceu com a compra da refinaria de Pasadena é um dever de sua gestão e um direito da sociedade.

3. Antes tarde do que nunca. Enfrente os convites que recebe do Congresso e faça a defesa da empresa. Afinal, a senhora não deve ter sido protagonista central de atos cometidos no passado.

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Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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