Sabedoria de advogado

Abro a Coluna com historinha enviada pelo amigo Luis Costa.

Dois carros se chocam. Um pertencia a um advogado e o outro a um médico. Ao sair do automóvel, o médico se dirige ao carro do advogado e percebe que nada de grave ocorreu. Só então os dois passam a verificar detalhes do acidente e chegam à conclusão que não tinham como escapar. O advogado já tinha ligado para a polícia, então resolveram ficar esperando a viatura para avisar aos policiais que ambos assumiriam seus prejuízos. A conversa, no início tensa, foi se transformando em animado bate-papo. O advogado vai se tornando íntimo do médico a ponto de lhe oferecer um uísque. Vai ao carro, tira a garrafa, derrama o uísque no copo e dá ao agora companheiro. Depois de alguns goles, o médico, relaxado, pergunta :

- E você não vai beber um pouco ?

O advogado responde sorrindo :

- Claro, mas só depois que a polícia chegar ! E fizer o boletim de ocorrência !

Lula driblando

Luiz Inácio é o nosso maior driblador. Sabe fazer firulas como ninguém. Em Portugal, cometeu mais uma versão. O mensalão foi "80% julgamento político e 20% jurídico". É troço de doido, sô, foi a resposta do ministro Marco Aurélio. Ele não entende a Corte Judiciária, foi a resposta de Joaquim Barbosa. Lula, na verdade, sempre nega a existência de fatos nebulosos ou rocambolescos que circundam o PT e companhia. Mas foi ele que pediu desculpas ao povo brasileiro quando tomou conhecimento de que companheiros estariam enveredando por caminhos transversos. Depois, chegou a dizer que se tratava apenas de caixa dois. E agora diz a uma televisão em Portugal que o mensalão não existiu.

Volta, Lula ?

O movimento que pede a volta de Lula aos palanques como candidato, no lugar de Dilma, se expande na esteira da queda da presidente Dilma no ranking das pesquisas. Hoje, ela tem 34% de avaliação ótima/positiva, índice mínimo necessário para se reeleger conforme estudos feitos por especialistas. Seu índice de intenção de voto está entre 37% a 40%, a depender do Instituto. Dilma tem corrido o país em inaugurações. Lula acaba de chegar da Europa e entrou num labirinto, aliás, teve uma labirintite. Seria um fator de estresse, de desconforto com a situação de sua pupila ?

"A abelha atarefada não tem tempo para tristezas". (Provérbio espanhol)

"Por causa da rosa, a erva daninha acaba sendo regada". (Provérbio árabe)

"Não há que ser forte, há que ser flexível". (Provérbio chinês)

PT em inferno astral

O PT vive um de seus piores momentos. Depois de atravessar o longo corredor aberto pela AP 470, eis que passa a enfrentar denúncias nas frentes da Petrobras e do Ministério da Saúde. O imbróglio recente se projetará em campanhas do partido por todo o país, mas os baques maiores serão em SP e no PR. Em SP, o tiroteio terá como alvo o candidato Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde, cujo nome está envolvido na teia que flagra a tal empresa Labogen. Padilha diz que é tudo mentira e vai processar os caluniadores. Mas o bombardeio midiático dará extensão às versões. O tal Marcão, que seria amigo de Padilha, ainda ganha R$ 24 mil do laboratório. No PR, a ex-ministra Gleisi Hoffmann, candidata ao governo, será alvo do tiroteio que abate o deputado André Vargas.

Eleitor mais atento

É possível que, em SP, o PT consiga chegar perto dos seus 30% históricos de votos. Mas será difícil. Porque, este ano, o pleito abrigará um eleitor mais atento e curioso. Ele acompanha o noticiário da mídia, mesmo o eleitor das margens, o mais carente. Por isso mesmo, as eleições deste ano deverão ser mais seletivas, mais inspiradas em critérios racionais.

A vez do PMDB em SP ?

O PMDB tem chances de eleger seu candidato ao governo de SP : Paulo Skaf. Mesmo sem campanha nas ruas, Skaf consegue ultrapassar a faixa dos 20% de intenção de voto. Alguns argumentam que isso se deve a exposição na mídia institucional. De fato, ele apareceu em determinado momento. Depois, apenas se viram anúncios institucionais, sem a presença dele. Ora, os índices alcançados pelo presidente da Fiesp refletem, de alguma forma, a insatisfação dos estratos sociais com o status quo. Parcela do eleitorado se queixa da mesmice e esgotamento dos tempos tucanos e também da gestão petista na área Federal.

"As dificuldades são como as montanhas. Elas só se aplainam, quando avançamos sobre elas". (Provérbio japonês)

"Endireite o galho enquanto a árvore é nova". (Provérbio chinês)

E tem ainda a Copa

Não está fora do arco de hipóteses a influência da Copa no calendário eleitoral. Não significa intuir sobre o mau desempenho de nossa Seleção. Significa projetar eventuais problemas nas arenas esportivas - acesso, falta de estrutura, incidentes decorrentes de obras improvisadas - sobre o ânimo das galeras. Isso, sim, poderá gerar apupos. Que os governantes e candidatos evitem estádios.

Campos encabulado

Quem viu Eduardo Campos nos últimos dias conserva a impressão de que ele se sente tolhido quando está junto de sua vice, Marina Silva. Parece conter-se no discurso, com receio de expressar algo politicamente incorreto aos ouvidos da ambientalista. Foi assim que se viu Eduardo Campos no jantar oferecido a ele por João Dória nesta segunda-feira. Marina, ao contrário, foi retumbante a ponto de ser aplaudida de pé por muitos presentes. Eduardo Campos ainda não ajustou sua identidade de candidato oposicionista. É um perfil frappé.

A Justiça Eleitoral

Muitos pré-candidatos estão nas ruas fazendo campanha. Em SP, o próprio Alexandre Padilha, esquecendo que ainda não pode falar como candidato, cometeu o deslize de dizer que, quando soube do envolvimento de seu nome com a empresa Labogen, deixou a caravana eleitoral que comandava no interior e correu para tomar providências. Ou seja, simplesmente disse que abandonou a campanha por algumas horas. Igual a Padilha, muitos outros correm seus Estados à procura de voto. E a Justiça Eleitoral ? Parece ter olhos dirigidos a apenas alguns candidatos.

A inflação das ruas

A burocracia do ar condicionado é refratária ao calor das ruas, vielas e becos. Por isso mesmo, fechados na redoma de estatísticas frias, em grande parte pinçadas de complexas operações e cruzamentos de dados que passam ao largo das feiras livres, os burocratas costumam desenhar cenários de um país diferente do que vivem seus habitantes. São também afamados pela "contabilidade criativa", que usam com frequência para puxar para baixo as contas que batem no bolso do consumidor, principalmente em ciclo de disputa eleitoral. Pouco adiantará mostrar para eles que o preço do tomate já subiu 31,72% este ano, que a batata inglesa aumentou 17,27% ou que os serviços tiveram alta de 9%. A inflação das ruas não conta para o burocrata. Sua visão é esdrúxula : "tomate e chuchu não são produtos insubstituíveis ; ninguém come morango o tempo inteiro ; e não é o índice de feirinhas e botecos que guia a política monetária".

Policiais Federais

Nesse momento, já é possível enxergar um alto grau de tensão a energizar setores e grupamentos, que pode originar ondas concêntricas de insatisfação social. É bastante previsível a hipótese que aponta para a existência de bolsões represados aguardando o momento para despejar sua indignação. Veja-se essa paralisação dos policiais Federais. Trata-se de um movimento inusitado que agita um braço investigativo do Poder Executivo, cuja forte atuação nos escândalos mais impactantes da contemporaneidade o posiciona como um dos atores fundamentais no combate à corrupção. Os quadros se ressentem de precárias condições de trabalho, salários defasados, "ingerências políticas nas investigações" e repasse de atribuições constitucionais da PF a outros órgãos.

O aparato policial nos Estados

O aparato policial militar em muitos Estados desfralda também uma larga planilha de reivindicações, centradas em salários e condições de trabalho. Vejam a BA e o RS. A insatisfação das forças policiais se expande. Teria esse fenômeno ligação com o incremento das ocorrências policiais no país ? A desmotivação dos batalhões das ruas seria motor da expansão da criminalidade ?

"A paciência é uma árvore de raiz amarga, mas de frutos muito doces". (Provérbio persa)

"Quem abre o coração à ambição, fecha-o à tranquilidade". (Provérbio chinês)

"Não caia antes de ser empurrado". (Provérbio inglês)

"Duas coisas indicam fraqueza : calar-se quando é preciso falar, e falar quando é preciso calar-se !". (Provérbio persa)

Classe C quer mais que pão

Cheguemos ao epicentro das manifestações de rua, formado por grupos com origem na classe média C, os emergentes que escalaram os degraus de baixo da pirâmide para chegar ao primeiro andar do meio. Nesse espaço, alinham-se os grupos que puxam a corrente do "queremos mais". O pão sobre a mesa já não lhes é suficiente. Exigem serviços públicos qualificados, a partir dos transportes urbanos, parques de lazer, segurança, saúde e educação. Jovens, desempregados, comerciários, biscateiros, comunidades, torcidas fanáticas de clubes de futebol, integrantes de ONGs, e, claro, radicais, oportunistas e baderneiros, tendem a assumir papel de vanguarda na agitação das ruas, sob os ares catárticos da Copa e competitivos do pleito de outubro.

Classes médias tradicionais

As classes médias tradicionais também disparam fortes sinais de descontentamento, menos por conta da pressão da inflação das ruas e mais por se verem inundadas por uma volumosa torrente de escândalos em série. O longo episódio que culminou na condenação de implicados na chamada AP 470 ; o desvendamento de teias de corrupção nos intestinos da administração pública e que batem na Petrobras, empresa-símbolo do país ; a polêmica que se estabeleceu em torno de programas polêmicos, como é o caso do Mais Médicos ; as nuvens que se formam em torno das arenas esportivas, cujo atraso no cronograma de obras ameaça causar reação popular durante a Copa ; a repetição de mantras da velha política, com as interjeições do passado a mostrar a perpetuação de vícios - esse é o cenário da degradação que acolhe a gestão pública e a esfera política.

Desinteresse

Não por acaso, elevado índice de brasileiros - 72%, segundo o Ibope - não tem nenhum ou quase nenhum interesse na eleição. Na pesquisa espontânea da última rodada, 56% não marcaram intenção de voto em nenhum candidato.

Setores produtivos

Os setores produtivos, por sua vez, se mostram igualmente insatisfeitos. Vale lembrar que nunca se abriu tanto a caixa das desonerações tributárias como no governo Dilma. Mesmo assim, são claras as manifestações de desagrado com a política econômica, a traduzir inconformismo com os rumos da economia. Como se pode inferir, há um Produto Nacional Bruto de Insatisfação que a burocracia brasiliense teima em não enxergar ou não querer medir. Sem aviso prévio, grupinhos, contingentes, categorias, setores vão formando o que se pode designar de "coalizão dos indignados".

Conselho aos burocratas

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado ao PT. Hoje, volta sua atenção aos burocratas da economia :

1. Tenham cuidado com a "contabilidade criativa". Querer expurgar os produtos hortifrutigranjeiros da cesta da inflação é burrice.

2. Nenhum burocrata conseguirá apagar a verdade das feiras livres e passar uma borracha nas contas que batem forte no bolso do consumidor.

3. Sejam realistas, evitem dados mirabolantes e efeitos mágicos sobre o cotidiano das pessoas.

outras edições
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

-