Abro a coluna com o coronel Minervino, de Pernambuco.

João Minervino Araújo tinha uma das maiores firmas comerciais do Estado. Veio a crise, embananou-se. Um dia, aparece um advogado de Recife para cobrar títulos atrasados. O coronel Minervino ficou uma fera :

– Doutor, nunca atrasei um título em toda minha vida. Não sou culpado pela crise, que pegou todo mundo. Volte para o Recife. Quando tiver dinheiro, pago.

– É, coronel, estou vendo que o senhor quer ficar em nossa firma como um cliente relapso.

– E eu estou vendo, doutor, que o senhor é um advogado muito escalafobético.

– O que é escalafobético ?

– Sei não, doutor. Só sei que é um palavrão muito forte.

Onde estão os movimentos ?

A pergunta é recorrente : onde estão os movimentos de rua ? Por que refluíram ? As coisas melhoraram ? Vamos lá. As coisas não melhoraram ; a inflação está beirando os 9% ; o desemprego cresce ; a insatisfação nas margens se alastra. A questão é de oportunidade. Depois de grandes ondas, a tendência é de arrefecimento. Mas os movimentos estão com suas lupas abertas. Olhando, medindo posições, analisando parâmetros, observando. A qualquer hora, as ruas voltarão a ser ocupadas.

Impeachment murchou

O tema do impeachment murchou. Não apenas porque os partidos de oposição concluíram que a campanha nessa direção não iria vingar. Observa-se certo refluxo nas pressões sobre o governo, o qual, por sua vez, parece sair do canto do ringue. A agenda positiva é desenhada : quase R$ 200 bilhões para obras, programas e projetos em diversas frentes da infraestrutura. Os chineses sinalizaram confiança, aparecendo com R$ 50 bilhões para investimentos. O pacote do ajuste fiscal anda, devagar, mas passará. Sob essa teia – ainda curta – de confiança, la nave va.

Tensões

O governo continua a enfrentar problemas sérios com a base política que lhe dá apoio. O primeiro nó é com o próprio PT. Que defende o governo Dilma, durante o dia, e o ataca, durante a noite. O PT quer fazer omelete sem quebrar ovos. Parte dele, para ser mais exato. Essa ala acredita que a proposta da era Lula continua a ser atual : facilitar o crédito e o acesso ao consumo. Daí achar que Levy é o demônio que age contra a classe trabalhadora. Se o PT está rachado, imaginem o que os outros partidos pensam. Fazem pressão, cobrança e abrem a locução da crítica. Como querem que o PMDB esteja todo fechado com o governo se o próprio PT está rachado ?

Imbróglios

Dilma passará por um longo corredor polonês : vai apresentar uma nova fórmula no lugar da regra alternativa ao fator previdenciário. A regra aprovada pelo Congresso – 85/95 – (tempo de contribuição mais a idade da mulher ; tempo de contribuição mais a idade do homem), segundo o ministro Carlos Gabas, levará o sistema previdenciário ao buraco, com o envelhecimento da população. E se as Centrais Sindicais não concordarem com a nova disposição ? Será o grande imbróglio das próximas semanas. Depois, a questão da maioridade. A tendência partidária é a de aprovar a diminuição da maioridade penal para 16 anos. Cunha conseguiu ajustar votação com PSDB, que tinha proposta alternativa. O texto acertado prevê redução da maioridade para os casos de crime hediondo – como estupro e latrocínio –, lesão corporal grave e roubo qualificado (neste caso, quando há sequestro ou participação de dois ou mais criminosos).

Desoneração

Outro imbróglio será na área das desonerações. Alguns setores produtivos reivindicam que a política de desoneração da folha continue a lhes proteger. O relator, deputado Picciani, tende a escalonar a aplicação da regra para certas áreas.

Recado de Zaratustra

Em "Assim falou Zaratustra", Nietzsche expressa um pensamento muito apropriado para radiografar o estado de espírito da força social emergente : "novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga ; como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Não quer mais, o meu espírito, caminhar com solas gastas". Um bom recado do profeta Zaratustra aos deputados e senadores.

Contas da Dilma

As contas da presidente Dilma, mesmo sob fortes críticas, tendem a ser aprovadas pelo Tribunal de Contas da União. O relator, ministro Augusto Nardes, aponta distorções nas contas de 2014, identificando divergências de R$ 7 bilhões na dívida da União e R$ 1 bilhão no saldo de financiamentos do Tesouro ao BNDES, além de passivos ocultos de R$ 222,5 bilhões por irregularidades no registro das dívidas (as pedaladas fiscais). Em abril deste ano, em Comandatuba, na Bahia, por ocasião do evento do LIDE, o ministro já havia antecipado este ponto de vista a este analista. Mas o TCU teme repercussões muito negativas em caso de desaprovação. Pode ser que fique na opção do puxão de orelhas.

Os centros sociais

Consideremos os centros sociais como os conglomerados do meio da pirâmide, as classes médias, que tendem a propagar seu pensamento até as margens. Consideremos três setores de classe média : o A, elevado ; o B, a do meio e a C, a emergente. Quem sofre mais nesse momento é a classe média C. Que começa a perder o poder de compra adquirido há alguns anos. Já não tem disponibilidade para compra fogão, geladeira, carro. O bolso se comprime com a inflação e a subida de preços. A classe média B tem poder crítico forte. É a mais contundente contra o governo e o PT. Acompanha as tendências e está antenada na mídia. A classe média A é crítica, mas atravessa o ciclo da crise à distância.

As margens

As margens periféricas sentem o esvaziamento de suas bolsas (pacotes sociais) e bolsos. Sofrem, sobretudo, com a carência e precariedade dos serviços públicos, a partir dos hospitais desmantelados e escolas públicas sem ensino de qualidade. Locupletam os meios urbanos de transporte coletivo, comprimindo-se todo santo dia em vagões de trens e ônibus. Começam a xingar governo e políticos, "tudo farinha do mesmo saco". Esperam as eleições para darem o troco. É o que costumam dizer quando instadas a emitir opinião sobre a situação do país.

Como agem as massas ?

As pessoas agem de acordo com quatro instintos ou impulsos. O primeiro é o instinto combativo, a necessidade de preservar-se, viver bem ; daí a luta contra as intempéries, os adversários, tudo que seja ameaça à sobrevivência. Se o Estado não lhe dá garantia de uma vida saudável, que vá pro inferno, sugere mentalmente. O segundo é o instinto alimentar, a necessidade de garantir o estômago para sobreviver. Na luta contra a fome, contra a miséria, recorre igualmente ao Estado. Daí o medo do desemprego, da falta de dinheiro. O terceiro é o impulso sexual, que garante a preservação da espécie ; e o quarto, o instinto paternal, é o responsável pelos vínculos da solidariedade, do amor à família, do carinho, da amizade, do companheirismo. Uma crise nos dois primeiros sistemas afeta os dois últimos, amortecendo os valores espirituais. Se não se sentem protegidas, as massas acabam se voltando contra os dirigentes que prometeram protegê-las.

PT se recupera até eleições ?

É mais viável apostar no declínio eleitoral do PT em 2016 do que em seu sucesso. Teremos ainda um ano e 4 meses até o pleito para prefeito e vereadores. Como 2015 está praticamente perdido em matéria de alento econômico, sobraria a quadra pré-eleitoral de 2016 para eventual recuperação do partido. Tempo curto. Nas capitais e grandes cidades, a formação da opinião é um processo lento. Forma-se um cordão de problemas e estrangulamentos no entorno das administrações. Em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad será o alvo de todos os outros candidatos. E uma derrota do PT na maior megalópole impactará a militância. Os administradores municipais de outros partidos também sofrerão as conseqüências do ciclo de vacas magras.

Férias coletivas

15 das 29 fábricas de automóveis do país pararam ou ainda vão parar neste mês de junho e no próximo mês de julho. É uma faceta da crise. O desemprego na Grande São Paulo está chegando aos 9%.

Planos econômicos

Caso o ministro Edson Fachin, que tomou posse ontem no STF, se considerar impedido de julgar os planos econômicos das décadas de 80 e 90, faltará quorum na Corte para analisar e decidir sobre o assunto. Outros três ministros já se declararam impedidos : Luiz Fux, Luís Roberto Barroso e Cármen Lúcia.

PMDB terá candidato

Em 2018, o PMDB terá candidato à presidência da República. Isso é questão já fechada na cúpula do partido. A orientação, para 2016, é que o partido disponha do maior número de candidatos para todas as cidades, a fim de continuar a liderar o ranking de prefeituras. O que é bastante provável.

Andréa se prepara

O vereador tucano Andréa Matarazzo já começa a formar sua equipe com vistas ao pleito do próximo ano. Tem o apoio de José Serra e luta para ganhar o placet de Geraldo Alckmin.

PDT fica ou vai ?

Uma dúvida se espraia : o PDT, comandado por Carlos Lupi, fica ou sai do governo ? O que se sabe é de uma reivindicação dos deputados no sentido de ocupar a vaga do ministro Manoel Dias no Ministério do Trabalho. O PDT tem votado sistematicamente contra o governo.

Emoção mata a razão

Zeferino era candidato a deputado pela Bahia. Arrebatado, enérgico, espumando de civismo, discorria sobre o sentido da liberdade. Dizia : "o povo livre sabe escolher os seus caminhos, seus governantes, eleger os seus deputados". Para entusiasmar a multidão, levou um passarinho numa gaiola, que deveria ser solto no clímax do discurso. No clímax, tirou o passarinho da gaiola, e com ele na mão direita, lascou o verbo : "a liberdade é o sonho do homem, o desejo de construir seu espaço, sua vida, com orgulho, sem subserviência, sem opressão ; Deus (citar Deus é sempre bom) nos deu a liberdade para fazermos dela o instrumento de nossa dignidade ; quero que todos vocês, hoje, aqui e agora, comprometam-se com o ideal do homem livre. Para simbolizar esse compromisso, vamos aplaudir e soltar esse passarinho, que vai ganhar o céu da liberdade". Ao abrir a mão, o passarinho estava morto. A frustração acabou com a euforia ; as vaias substituíram os aplausos. Um desastre. A emoção, quando não controlada, mata a razão.

O bonitinho

João Bonitinho era figura popular em Caruaru. Vivia fazendo comício no bar e pregando comunismo na farmácia. Veio 64, Bonitinho foi preso. O delegado começou a apertar Bonitinho :

– João, se você não fosse comunista, o que é que você ia ser ?

– Capitalista.

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Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.