Goffredo Telles Junior configura uma tríplice personalidade espiritual: nele se congregam o jurista, o homem público, o escritor.

Cada uma dessas dimensões expressa a grandeza intelectual e moral desse cidadão a quem o Brasil tanto deve pelas sumárias razões a seguir declinadas.

Jurista, pertence à categoria dos grandes pensadores que na idade contemporânea escreveram com originalidade e profundeza sobre matéria jurídica. E fê-lo com inteira autonomia de vôo nas esferas científicas e jusfilosóficas, desenvolvendo a teoria quântica de Direito, criação sua.

Homem público, poucos fizeram ao país, na região do patriotismo, tão relevantes serviços à causa da unidade nacional e da conservação e intangibilidade das instituições democráticas quanto o Professor do Largo de São Francisco.

Da primeira assertiva, tocante à defesa do espaço e do solo, é exemplo incomparável sua presença política num dos momentos históricos mais graves de nosso passado, quando denunciou ao País o crime da internacionalização da Amazônia.

Com efeito, sendo membro do Congresso durante a segunda metade da década de quarenta, logo após a Segunda Grande Guerra Mundial, Goffredo desbaratou a conspiração legislativa dos interesses estrangeiros que nos queriam impor o famigerado Estatuto da Hiléia Amazônica, por onde se abdicava a soberania sobre a parte mais rica e considerável do território nacional, e, com as tintas da traição e da covardia, se intentava escrever o capítulo escuro duma peça que reproduzia a tragédia do México, quando este perdeu para os Estados Unidos a Califórnia e as partes mais opulentas da antiga colônia, recém-emancipada do domínio espanhol.

Da segunda assertiva, referente à defesa do regime democrático, podemos assinalar, com extrema convicção, que a fé republicana de Goffredo Telles Junior viveu seu grande momento cívico ao escrever ele a Carta aos Brasileiros.

O documento histórico, grito de consciência de uma nação que se levantava contra os opressores, clamava pela restauração da democracia e do Estado de Direito.

Título bastante para recomendar seu autor à memória e gratidão dum povo que padeceu o cativeiro de vinte anos de ditadura militar, com suas liberdades confiscadas e a voz de seus representantes emudecida pelo terror das cassações e dos atos institucionais.

Aquele Manifesto teve e tem historicamente o mesmo significado e importância da célebre entrevista de José Américo de Almeida a Carlos Lacerda em 1945; entrevista que rompeu os grilhões censórios doutra ditadura, precipitando a queda do Estado Novo.

O paraibano derrubava o despotismo civil de um caudilho; o paulista o despotismo militar duma autocracia cujas raízes eram mais profundas e mais difíceis de erradicar.

Em verdade, reverenciamos também no homenageado o memorialista da "Folha Dobrada", o escritor primoroso, o artista da palavra vernácula; sobretudo, como vimos, o restaurador da legalidade constitucional.

Nas páginas autobiográficas daquela obra encantadora se condensam impressões humanas colhidas do cotidiano, que se traduzem para o leitor numa valiosa lição de vida e de compreensão social do universo em que estamos imersos.

Há no livro um percurso existencial que vai da mocidade à idade provecta, passando pela formação acadêmica, pelo exercício da cátedra, pela ação no campo da política e das ideias, onde manteve sempre a coerência ética de seu caráter e de sua identidade, bem como a afeição às causas que entendem com o progresso, a civilização e o desenvolvimento nacional.

Nenhum catedrático desfrutou neste país tanto quanto ele a amizade e devoção de seus alunos.

Nenhum título lhe tocou mais a alma e a sensibilidade que este de amigo dos estudantes e educador de gerações.

Em suma, aqui ficam estes ligeiros e singelos traços que apenas retratam, de passagem, alguns aspectos superiores da vida de Goffredo Telles Junior enobrecida nos contributos ao Direito, à democracia, à liberdade, às letras e à Justiça.

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*Paulo Bonavides é jurista brasileiro e professor.


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