Imagine você ter seu lar e família ameaçados por uma ação violenta e consegue, através da força, defender a si próprio e aos seus. Esse embate resulta em mais violência e mortes. Você triunfou, deve estar por isso aliviado, mas, como bom ganhador, jamais deveria pensar em celebrar ou comemorar esse evento, sobretudo pelo fato de saber que os que sucumbiram também eram seus filhos.

É com essa analogia que ilustro minha opinião quanto ao erro e despropósito de se celebrar o dia 31 de março de 1964. Golpe ou contragolpe, é verdade que a ação das forças armadas atendeu aos reclamos da sociedade e recebeu o apoio solene da maioria absoluta das instituições brasileiras, inclusive daquelas que zelam pela ordem democrática e Estado de Direito, como a OAB e a ABI. Também é certo se afirmar que tiveram vítimas dos dois lados, a exemplo do saudoso jornalista Edson Regis, morto no atentado à bomba contra o presidente Costa e Silva, no Aeroporto dos Guararapes. Mas embora tudo isso seja passado, a dor ainda está presente e as feridas muito abertas no seio de muitas famílias brasileiras, sobretudo daquelas que tiveram sonegado o sagrado direito de enterrar seus filhos, como a de dona Elzita, mãe de Fernando Santa Cruz.

O fato dos governos recentes tentarem reescrever a história de nosso país, e alguns políticos insensatos terem celebrado no Congresso Nacional os 100 anos da Revolução Russa, que aniquilou mais de 20 milhões de compatriotas, não justifica incorrer no mesmo erro, pois o tempo é senhor da razão e a verdade não envelhece e nem grita.

Ao vencedor, cabe a postura magnânima de reconhecer a nobreza não apenas de seus aliados, mas também dos adversários que lutavam por aquilo que acreditavam ser melhor para o país, nunca ignorando a dor e o luto dos que caíram em combate. Esse seria o caminho da pacificação que tanto precisamos nesses tempos de cólera política.

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t*Pedro Henrique Reynaldo Alves é sócio do escritório Limongi Sial & Reynaldo Alves Advocacia e Consultoria Jurídica.